domingo, 28 de março de 2010

In Natura



Mas que bobagem.
É assim que é possível te amar.
Abrindo tuas pernas e cheirando teu sexo.
Sentindo teus sabores e lambendo tua boca.

Ah, é porque não tomou banho ainda.
Que sinto esse cheiro azucre. Ocre azulado.
Ainda lavado com o sabão
Da Natura. Mas vc é pura!

Ah, a lasanha que vamos comer.
Eu preferia uma galinha caipira
Comprada no site das galinhas
Azuis ocre sem alergia que espirra.

O último verso foi forçado
Para rimar a linha que faltava
Entre tuas pernas ainda abertas,
in Natura.

Vou te comer. Como um lobo,
Como comida a quilo, quatrocentos
e sententa gramas.
Trezentas e sedentas alianças.

Ah, vai te lavar, não vai te lavar
Vou te levar para a cama
Vou comer teu desejo
Te lavar com minha lama.

sexta-feira, 26 de março de 2010

Nem mesmo



Eu não poderia escrever os versos mais tristes essa noite.
Escrever, por exemplo, que meus olhos apagam com as estrelas,
que o Haiti chora milhares de mortes, negros como a noite e a dor de um dia raro e iluminado.

Não, não posso escrever os versos mais tristes essa noite.
É verdade, ela amou-me e ainda a amo loucamente.
Como não amar o sorriso, os movimentos do seu corpo, a poesia da sua existência? Pensar que nunca a tive. Sentir o que ainda sinto.

Nem mesmo poeta sou. Os versos não são meus, só a dor desses sentimentos.
O amor é essa chuva de risos ocultos que ouço zombando de mim.
Do ridículo de dizer que amo, que sonho com as mãos que acalentaram minha dor. Pensar que não posso vê-la caminhando na rua, comprando perfumes e flores.

De outro. Será de outro? E os meus beijos loucos, de vinho e sabor de filosofia? A cumplicidade íntima dos meus desejos, nas suas dobras mais escondidas, ainda ocupam a dor da minha desesperança.

Mas, ainda assim, seria impossível escrever os versos mais tristes essa noite.
Por uma razão simples. Ela ficaria ainda mais triste, sofreria ainda mais com palavras tristes, quando estivesse tomando vinho e rindo tristemente do meu amor.

Não, não posso nem mesmo escrever versos. Só mesmo sorrir, só mesmo sair pela noite
Sem estrelas, nas ruas desertas do Haiti.

domingo, 21 de março de 2010

Topologias paraconsistentes


O arco da promessa está permanentemente tenso. Promessas e indagações cercam, por todos os lados, ângulos e ruelas, o destino humano. A poesia, pode-se arriscar, é a força que mantém esse arco tenso. O arco e a lira de Artemis, Diana, Heráclito e Octavio Paz lançam dardos e poesias para todos aqueles tocados por esses sonhos e essas promessas. O arco é um link e a promessa é um texto hipermidiático, ambos, plenos de palavras, imagens, sons e objetos tridimensionais, habitando topologias paraconsistentes. Sentidos, como placas de trânsito, apontam galáxias e mundos desconhecidos. Conversas apuradas e palavras afiadas brilham no fundo dessas telas, desses topos, dessas esperanças. Para além do Facebook, existem lugares inóspitos, sonhos fugazes e loucuras inimaginadas. O envelhecimento nunca é precoce para quem não tem pressa, urgência de viver. A Universidade, as Academias procuram respirar pelos poros que ainda lhes restam e abrem suas portas e janelas aceitando seivas que brotam em recantos guardados. É preciso respirar, é preciso navegar ainda que os departamentos, os corredores e os burocratas pretendam asfixiar totalmente os sonhos e as esperanças. Ainda que pretendam, mesmo docemente, matar as fantasias que insistem em permanecer.

terça-feira, 16 de março de 2010

Poesia dos outros




"O poema não devia pertencer ao poeta, mas a quem dele necessita". No livro de Antônio Skármeta O Carteiro e o Poeta há um diálogo no qual o carteiro é censurado pelo poeta por usar os seus poemas para conquistar a amada. O diálogo é primoroso e Skármeta explora o tema de forma comovente.

Muitas vezes, caro leitor, temos que nos valer da poesia dos outros para dizer o que sentimos, o que pensamos. O poema abaixo é do espanhol Pedro Salinas e traduz, poeticamente, o que sinto.

Qué alegría, vivir
sintiéndose vivido.
Rendirse a la gran certidumbre, oscuramente,
de que otro ser, fuera de mí, mui lejos,
mi esta viviendo.

Que hay otro ser por el que miro el mundo
porque me esta queriendo con sus ojos.

domingo, 14 de março de 2010

Palabras para Julia




José Agustín Goytisolo é um catalã cuja poesia, musicada por Paco Ibañez, foi conhecida e amada por milhões de pessoas em todo mundo. A parceria entre poesia e música, como em muitos outros casos, resulta em riquezas para a cultura universal. Esse encontro foi uma dessas mais preciosas jóias.

Goytisola perdeu a mãe durante a guerra civil espanhola (1936-1939) num bombardeio das forças franquistas apoiadas por Hitler. Sua mãe se chamava Julia Gay. O mesmo nome dado a sua filha.

Palavras para Julia é um poema dedicado a sua filha; a música de Paco Ibañez é a luva perfeita que veste a beleza dessas palavras.

Também de Goytisolo é o poema abaixo, Érase una vez.

sábado, 13 de março de 2010

Lobito



Ah, los niños, la poesia y mis sueños de não te perder!

terça-feira, 9 de março de 2010

Pizza


A arte contemporânea é uma mussarela. Ferran Adrià e seu El Buli inspiram tomates e manjericões. A moda, a culinária e todos os prazeres sensuais foram convertidos em pimentas do reino. A Bahia é um reino de sabores amargos, de danças velozes e esperas intermináveis. É daqui que espero o teu convite e o teu sabor. É daqui que aguardo a tua presença.

A pizzaria é o melhor dos museus, sobretudo na Bahia.

domingo, 7 de março de 2010

Links inúteis



Desfazer o laço e refazer o desejo de uma alegria sem fim. Um jogo que sempre recomeça, sempre de novo, sempre outra vez. É como des fazer o laço e depois ver como se faz o nó que liga a fita, abraçando com força os ensaios sobre um coração de trufas.

Procuro a poesia em cada linha do parque. Fragmentos preciosos. Duas ou três palavras são suficientes para traduzir intermináveis bancos de dados e links inúteis. A geometria do desejo medida pela intensidade da luz, atravessando uma alta janela em pleno coração de um qualquer Museu de Arte.

Uma salada e um comentário sobre Frida Kahlo e Montaigne. A poesia de Lugones e uma Antologia de Poemas Sexuales. Uma copa de vinho maravilhosamente providenciando o esquecimento dos ensaios sobre o suicídio e o dinheiro, de David Hume. Uma sabedoria do amor intenso que permite olhar, com volúpia, a felicidade de poder viver o esplendor do viver.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Lunar


El reposo del fuego - (Don de Heraclito)


Pero el agua recorre los cristales
musgosarnente :
ignora que se altera,
lejos del sueño, todo lo existente.

Y el reposo del fuego es tomar forma
con su pleno poder de transformarse.
fuego del aire y soledad del fuego.
al incendiar el aire que es de fuego.
Fuego es el mundo que se extingue y prende
para durar (fue siempre) eternamente.

Las cosas hoy dispersas se reúnen
y las que están más próximas se alejan:

Soy y no soy aquel que te ha esperado
en el parque desierto una mañana
junto al río irrepetible en donde entraba
(y no lo hará jamás, nunca dos veces)
la luz de octubre rota en la espesura.

Y fue el olor del mar: una paloma,
como un arco de sal,
ardió en el aire.

No estabas, no estarás
pero el oleaje
de una espuma remota confluía
sobre mis actos y entre mis palabras
(únicas nunca ajenas, nunca mías):
El mar que es agua pura ante los peces
jamás ha de saciar la sed humana.


José Emílio Pacheco

terça-feira, 2 de março de 2010

A gangorra





A gangorra é esse brinquedo que joga com a alma. Lança para o alto o corpo da criança que vai sempre mais alto, sempre mais longe. A poesia do balanço é o sorriso das primeiras emoções que marcam para sempre nossas esperas.

Essa gangorra é uma espera, um sonho pendular, um desejo de ir além.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Pureza



"El objeto más bello y más limpio de este mundo es el jabón oval que
sólo huele a sí mismo. Trozo de nieve tibia o marfil inocente, el
jabón resulta lo servicial por excelencia. Dan ganas de conservarlo
ileso, halago para la vista, ofrenda para el tacto y el olfato. Duele
que su destino sea mezclarse con toda la sordidez del planeta.
En un instante celebrará sus nupcias con el agua, esencia de
todo. Sin ella el jabón no sería nada, no justificaría su indispensable
existencia. La nobleza de su vínculo no impide que sea destructivo
para los dos.

Inocencia y pureza van a sacrificarse en el altar de la inmundicia.
Al tocar la suciedad del planeta ambos, para absolvernos,
dejarán su condición de lirio y origen para ser habitantes de las
alcantarillas y lodo de la cloaca.
También el jabón por servir se acaba y se acaba sirviendo. Cumplido
su deber será laja viscosa, plasta informe contraria a la perfección
que ahora tengo en la mano.
Medios lustrales para borrar la pesadumbre de ser y las
corrupciones de estar vivos, agua y jabón al redimirnos de la noche
nos bautizan de nuevo cada mañana. Sin su alianza sagrada,
no tardaríamos en descender a nuestro infierno de bestias repugnantes.
Lo sabemos, preferimos ignorarlo y no darle las gracias.

Nacemos sucios, terminaremos como trozos de abyecta podredumbre.
El jabón mantiene a raya las señales de nuestra asquerosidad
primigenia, desvanece la barbarie del cuerpo, nos permite salir
una y otra vez de las tinieblas y el pantano.
Parte indispensable de la vida, el jabón no puede estar exento
de la sordidez común a lo que vive. Tampoco le fue dado el no ser
cómplice del crimen universal que nos ha permitido estar un día
más sobre la Tierra.

Mientras me afeito y escucho un concierto de cámara, me niego a
recordar que tanta belleza sobrenatural, la música vuelta espuma
del aire, no sería posible sin los árboles destruidos (los instrumentos
musicales), el marfil de los elefantes (el teclado del piano),
las tripas de los gatos (las cuerdas).

Del mismo modo, no importan las esencias vegetales, las sustancias
químicas ni los perfumes añadidos: la materia prima del
jabón impoluto es la grasa de los mataderos. Lo más bello y lo más
pulcro no existirían si no estuvieran basados en lo más sucio y en lo
más horrible. Así es y será siempre por desgracia.

Jabón también el olvido que limpia del vivir y su exceso. Jabón la
memoria que depura cuanto inventa como recuerdo. Jabón la palabra
escrita. Poesía impía, prosa sarnosa. Lo más radiante encuentra
su origen en lo más oscuro. Jabón la lengua española que lava en el
poema las heridas del ser, las manchas del desamparo y el fracaso.
Contra el crimen universal no puedo hacer nada. Aspiro el aroma a
nuevo del jabón. El agua permitirá que se deslice sobre la piel y nos
devuelva una inocencia imaginaria."


José Emilio Pacheco
Elogio del jabón (fragmento)