segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

O trem



Já li as profecias e recebi os velhos votos. Tudo será igual, tudo será diferente. Quando o sol raiar a minha alma procurá a paz ao teu lado. Cada dia será como o primeiro, cheio de incertezas. Mal nascerá o sol e a minha pergunta, mais uma vez, será: o que fazer para ganhar o teu amor?

O trem continuará desgovernado rumo ao abismo. Mas talvez ainda haja tempo para uma última bebida, um último cigarro e o mais longo dos beijos.

A Política, a Filosofia, A Ciência, a Arte... o que fazer com isso nesse momento? O fazer com isso numa árvore de Natal?

O trem leva o destino do homem. Sentado numa das suas poltronas, levemente adormecida, está a deusa Verdade. O trem leva os deuses para o abismo. O homem conduz o trem.

terça-feira, 23 de dezembro de 2008



Leio o blog de Miguel Cordeiro e sou informado que ele está na relação da revista Veja, que foi listado ao lado de tantos outros blogs. O que faz aqui, nessa lista, uma publicação primorosa da obra Arquivos Miguel Cordeiro - Palavra & Imagem? Sobre listas e relações dos cem mais em qualquer gênero já se disse muito. Cometem erros grosseiros. Parece um tipo de problema que os algorítimos do Google podem resolver.

A revista Veja é burra e grosseira. Marcelo Coelho, do Conselho Editorial da Folha de São Paulo, lembra essa burrice ao tempo em que pergunta: Será que a burrice nunca abandonará a revista "Veja"?

Eles bem que podiam ser menos preguiçosos, e burros, e dar ao blog de Miguel Cordeiro o destaque que ele merece.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Cavalo de corrida genial


Robert Musil, em O homem sem qualidades, relata a angústia do personagem que percorreu os mais árduos caminhos para alcançar o reconhecimento por sua genialidade. Ao fim de tão elevado esforço ele constata que um cavalo de corridas o antecipara e, primeiro que ele, é reconhecido como um cavalo de corridas genial.

Assim como a genialidade não é mais um atributo humano mas coisa de equinos, também o amor que Platão, no Banquete, ensina, e que o Cristo elegeu como princípio fundamental, não é mais nada que um mero jogo de palavras sem sentido.

Foi com esse título pomposo que os comerciantes, empresários, professores dos departamentos universitários das ditas Humanidades e outros profissionais que amam suas profissões, fizeram sua "confraternização" de fim de ano: A feijoada do amor.

Amor e feijoada parecem ter uma ligação visceral. Algo meio sarapatel com as devidas normas da ABNT devidamente corrigidas. Um currículo Lattes de trinta páginas de absoluta genialidade e amor.

Já estou no limbo, no purgatório. Por favor não rezem pela minha alma. Ela não tem nada de genial e muito menos tem apetite de feijoadas.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

O Jardim Japonês


Carpas, águas, brilhos, levezas azuis, unhas negras, delicadas.
Horas a fio reluzindo o raio do sol, da lua, da luz negra azulada.
Cabelos de fogo, olhar de corpo celeste, ar puro marinho.

Águas puras, cristalinas manhãs de luz.
Do alto da montanha um vento vem.
Vem o sopro do vento frio.
Da manhã, da tarde, da hora certa.

É só uma luz. É toda luz, toda a vida.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Job




Não há, de acordo com George Steiner, uma frase mais violenta na literatura teológica que a de Karl Barth:

"Dios pronuncia Su eterno No al mundo". Depois do Holocausto a Arte não faz mais sentido.

O que faz sentido senão a tua existência e a esperança do teu olhar?

Eu continuo ateu. Continuo obcecado e fascinado com a flor do maracujá. Do amor do novo testamento.

Café



O café tem sido o grande companheiro das madrugadas. Com ele vislumbro as primeiras luzes do dia e sinto seu aroma invadir os territórios ocultos do corpo. Compõe as forças para um novo começo, para as esperança de ver, mais uma vez, teu sorriso de esplendor. Não, não é obsessão, é pura fascinação.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Virose


Líquidos brotando de todas as partes do corpo. Dores iluminadas por lâmpadas brancas de luz fria. Toda a vida parece resumida a essa insignificância de um tubo de ensaio e de uma agulha rasgando a delicada pele. As lembranças desfilam perdidas e esquecidas em baús digitais de HDs enferrujados.

Aqui, na clínica, nesta pequena cela, sem nenhuma privacidade, somos todos iguais. Somos todos mortais, finitos, pequenos seres abandonados pela sorte.

Duas horas depois desse rápido susto, a vida retorna com toda a sua arrogância, sua vontade de ser feliz, de ousar os sonhos mais impossíveis.

Ah.... gracias a la vida, que me ha dado tanto!

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

7:30 pm


Estranha hora vagando entre sete e oito passos. Um tempo que não sei o que é. Uma intriga que jorra tempo, uma trama automáticamente posta no final do dia. A poesia atravessando o pão, o queijo e a saudade. Esgotados os trinta primeiros intervalos de outros intervalos ainda menores sem que eu mesmo pudesse me dar conta do tempo que passou.

No instante seguinte, a memória empacota e guarda, num lugar desconhecido, toda aquela vida que ficou no intervalo entre o pão e a saudade. Fluxos para um sem fim dos heraclitianos rios do Recife e de Itacaré. O eterno vir a ser do mesmo, outra hora depois. A trama do tempo, essa intriga, assunto de Aristóteles e de João Ubaldo Ribeiro. O tempo, esse terreiro de candomblé, é índigo blue. Não tem plural, mas é plural; uma ave de rapina que rouba de mim o tempo que preciso para te amar.

Por isso, a urgência. São 7:30 pm. Preciso dizer, encharcar com amor este instante. A palavra que acabo de escrever, o tempo que acabo de viver é o tempo da música das esferas e do canto suspenso no ar.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Poema Lírico


"Hechas de materia infamable, las palabras se encendian apenas las rozam la imaginación o la fantasía".

Octavio Paz ilumina com fogo as palavras que toca. A experiência poética é um salto mortal.

Escrever poemas líricos e publicá-los num "simples e ingênuo blog" é um pequeno "salto mortal" que permite uma espécie de "regresso a nossa natureza original". Mas, ainda assim, isto aqui é uma guerra.

Mesmo o poema lírico, que ilumina detalhes da intimidade,... "es la revelación de sí mismo que el hombre se hace a sí mismo".

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Colores y poemas


De colores son los pajaritos
y los poemas de amor.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

9:34 am



Acabo de ler um longo texto de Miguel Cordeiro. Historiador ímpar, MC tem contribuido, como poucos, com sua memória abismal, para uma história singular da nossa época e, particularmente, da cidade do Salvador da Bahia.

A Memória é uma deusa. O filósofo Martin Heidegger, em sua reflexão sobre o “poema doutrinário” do grego Parmênides, perguntando pela Verdade, afirma que não existe uma deusa da Verdade, mas que a Verdade é, ela mesma, uma deusa.

A Memória também é uma deusa. Lembrar, rememorar, recordar, reviver, retratar. A marca temporal assinalada por Jean-Paul Sarte no Imaginário. O ato mágico, o encantamento da subtração da ausência e da distância. Evocação e busca da reconstrução imaginária do sonho e da vida.

De certo modo somos o que lembramos. A memória desenha o rosto da nossa identidade. Uma identidade cada vez mais flexível, imersa numa impressionante tempestade de imagens e sons, revela acelerado e estranho esquecimento.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

O Porto


Minh’alma é o lugar incerto.
que o teu desejo esqueceu.

A alma é um fantasma
vagando num galpão industrial.

Minhas mãos são saudades
atadas no fio do caminho.

Meu rosto, pedra fria,
transparente na memória.

Todo meu corpo é um traço,
uma linha que nada divide.


Em mim resta um porto, âncora perdida,
holografia do vazio.

O teu aliento, único veneno,
último alimento.

Nas margens do rio. Perto do Porto.
Perto da cidade de altos reluzentes.

Estações de pessoas alheias
pastagens em planíceis matinais.

Eu te vejo verde que te quero verte.
De Lorca e Sevilha.

De colores son los pajaritos.
Y los poemas que hablan del amor.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

O porto, o mar.



Na cidade tem um porto
e o mar é o seu espelho

Manhã e barcos, líquido,
um espelho guarda tua imagem.

Refletidos estão porto e distâncias,
da montanha se pode mirar.

Teu corpo é uma via láctea de águas e fotos,
de silêncios e ausências.

Mares do Sul. Mares das tuas galáxias
espelhadas na lembrança.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Mundo


O tempo é seco.
Aqui é deserto.

O ar é rarefeito.
Água há.

Respiro teu olhar
esperando tua saliva.

Albumina vida minha,
derramando líquidos em mim.

Entorna sobre mim tua líquida paixão .
e fecunda teu sustento.

Minha alma é um lugar incerto.
Meu corpo, teu alimento.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Espelho


Olho no espelho e vejo o olho aberto por dentro e por fora de tudo o que há em toda parte. A paisagem é refletida no olhar que pensa e espera o barco passar. O dia é incerto e a lua não tarda a nascer. Na manhã, quando ainda é manhã, abro os olhos e sonho que logo verei algo brilhante refletido no horizonte.

On the hill


Do alto dessa pequena colina é possível ver as naves imaginárias que navegam para as terras desconhecidas. Das terras ocultas chegam as mensagens dos deuses longínquos. Da memória, e suas intermináveis lembranças, brotam sonhos de uma viagem sem fim.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Esperanças


Bate outra vez
Com esperanças o meu coração
Pois já vai terminando o verão enfim


Cartola

Black and White y Esperanza


A vitória de Barack Obama anuncia um mundo inimaginável. A idéia de Esperança, com a qual ele acena tempos vindouros, é uma desses conceitos que compartilham com a idéia de Futuro, uma zona enigmática do destino humano.

George Steiner mostra como as 'esperanças' buscam, fundamentalmente, "una compensación por el sufrimiento injusto". Sejam religosas ou socialistas, as esperanças são "mercadorias" entregues no futuro.

O vermelho e o preto das cores dos vestidos de Michelle Obama, e das suas lindas filhas, entoam o canto do encontro das raças.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Shivare



'¿Tenemos derecho a preguntar por quê no ha de ser alegría el pensamiento humano¿'
George Steiner in Diez (Posibles) Razones para la Tristeza Humana

domingo, 2 de novembro de 2008

Esquisito




Já li jornais. Agora só vejo as fotos. Não que não leia mais, é que leio sempre menos. Sem tempo para ouvir lamúrias e comentários pobres de jornalistas em geral, leio Platão e Castoriadis. Os jornalistas têm uma profissão muito cruel que é a de ter o que falar a cada dia. Falam, falam, falam e, de vez em quando, conseguem dizer algo.

Imagens são diferentes ou indiferentes. São rápidas de serem vistas. Se a imagem não interessa, a gente vê de cara. Mas no texto jornalístico, acadêmico ou literário só vamos saber depois de um certo tempo. Por isso também é que leio, cada vez mais, as pequenas notas de certas colunas.

Leio Renata Lo Prete e Cláudio Humberto que ficou conhecido como a Porca Voz. Procuro ler autores brasileiros, mas leio pouco. Ler José Sarney, por exemplo, é um exercício mortal. Não menos terrível quanto ler o que tem a dizer o sr. Benjamin Steinbruch ou o sr. João Pedro Stédile. Claro que ler Luiz Felipe Pondé é sempre um grande prazer. Mesmo quando ele faz questão de revelar sua intimidade ao lado de Sloterdijk tomando um bom vinho e rindo da vida. Isso me faz lembrar Antônio Risério que adora fazer esse tipo de comentário. De revelar sua intimidade com outros personagens notórios.

Ler os editorias de certos jornais. Iguais em toda parte. Espanha, Miami, Alemanha, Argentina, ou Bogotá. Seus cadernos de cultura, com seus intermináveis filósofos e entrevistas cretinas. Ler é um ato desesperado. Ver o mundo e ler os sinais que temos dele é belo, maravilhoso e violento. Algo absolutamente paradoxal.

Talvez por essa razão, pelo fato de que o mundo seja essa coisa esquisita, é que podemos ler o mundo de cabeça para baixo e em todas aquelas perspctivas nas quais se pode sonhar e ousar.

Diante do que tenho lido e visto, quando me deparo com essas questões do cotidiano sinto a necessidade de uma bela imagem para, com ela, viajar.

Uma imagem de uma pintura. Um azul banhado por um amarelo ouro puro e cristalino. Telas galáxias, telegaláticos sinais do mundo, sinais nas fronteiras do tempo.

sábado, 1 de novembro de 2008

Coldre


A imagem é filha da saudade. Pergunta pelo passado do homem mirando seu próprio fim. A violência como única condição para a sobrevivência. O aqui e o agora mas que bem poderia ser em algum lugar e a qualquer momento.

Minhas lembranças nessas terras globalizadamente sem fim. Isso aqui é o fim do mundo. Aquilo que Caetano canta em "Cú do mundo": ...onde o cujo faz a curva.... o crime estúpido, o criminoso... O adjetivo esdrúxulo.

Mas tem moqueca e dendê. Calor e aratu. Tem a menina com samba no pé e loucura na cabeça. Ah, e tem picolé.

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Bebe

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

A flor que és




A flor que és, não a que dás, eu quero.
Porque me negas o que te não peço.
Tempo há para negares
Depois de teres dado.
Flor, sê-me flor!

Se te colher avaro
A mão da infausta esfinge, tu perere
Sombra errarás absurda,
Buscando o que não deste.


Ricardo Reis

Aqui





Ao contrário de Eduardo Suplicy ( esse senador da República Brasileira ) que tornou pública sua dor, quando foi abandonado por sua mulher Marta, esse blog não é uma vitrine de sentimentos pessoais. Aqui não estão expostos fragmentos de dores ou quaisquer outros tipos de esperanças. O único propósito, ainda assim bastante vago, é permitir um exercício da palavra num palco aberto e absurdo. Não é coerente nem rigoroso, não tem compromissos políticos, religiosos, culturais, artísticos ou qualquer outro que possa ser referido. Mas, eventualmente, pode ser tudo isso.

Comentários, idéias, ondas, vagas, divagações, ilações, inferências, digressões e outras formas que expressam "ausência de coerência interna" são frequentes nesse exercício. É possível pensar coisas tão díspares como a beleza delicada da borboleta que pousa na flor que a criança leva na mão, quanto as implicações sobre a identidade, na perspectiva de uma abordagem fenomenológica da lembrança.

Paul Ricouer, Edward Casey, Supla, Luis Carlos Petry, artistas transgênicos, abusos mentais, Octavio Paz, Philip Roth, Leopoldo Lugones, o cú do mundo, Ilhéus, Itacaré, Miguel Cordeiro, Joyce Pascowitch, o restaurante do MAM perto da OCA, O Parraxaxá, a Rodrigo de Freitas, a terceira ponte, os parques de palermo, o café no Ateneo y la plaza mayor en Madrid. Places, sites, lugaridades, espacios de mistérios e recuerdos.

Todas essas cosas que nuestras cabezas inventan para olvidar y buscar aliento en la vida. Imagens de jabuticabas azuladas e brilhantes refletindo as ilustrações deslumbrantes dos livros infantis.

Tranpas del decir.

Mater


Nem mesmo o céu
, nem as estrelas, nem mesmo o mar
 e o infinito,
 não é maior
 nem mais bonito... (Roberto Carlos)

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Terra



Que a força mãe dê coragem
Prá gente te dar carinho
Durante toda a viagem
Que realizas do nada
Através do qual carregas
O nome da tua carne...


(Caetano Veloso)

Pai


É para ti, meu pai, que minha memória procura lembranças. Tua mão e esperança guardam meu coração. O meu amor desesperado e aflito de medo. Da bala, do tiro atravessando silenciosamente a porta frágil e absurda.

São nessas idéias vagas e nesses encontros inesperados que vejo, na memória, um lampejo de inútil esperança.

Os teus olhos estão em mim.

Anamnese


O vocábulo infamante do engano. Pathos puro. Memória, lembrança, recordação.

Campos azulados compõem a paisagem. Cores compostas em pastas azuis transportam linhas sem fim.

Com sua boca me honra, mas tem afastado para longe de mim o seu coração... Isaías (29, 13)

17:01 PM


17:01 PM

A morte cerebral de Beatrice Tereza Oliank, 15, foi confirmada ontem, a família autorizou a doação dos orgãos no final da manhã de hoje.

Isolado dos outros, ele não chorou, não dormiu, não comeu nem bebeu.
Apenas dizia: "Quero Beatrice. Eu amo a Beatrice. Ela é tudo em minha vida".


17:06 PM

Ela era silenciosa, discreta, não miava,

Fui vê-la na clínica e me dilacerou o coração ver aquela coisinha tão pequena, com uma patinha raspada para colocar o cateter, e me olhando com seus grandes olhos amarelos, como se perguntasse "por que estão fazendo isso comigo?"


17:18 PM

………


17:20 PM

Y será como el que tiene hambre y sueña, y parece que come, mas cuando despierta, su alma está vacia… Isaías (29, 8).

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

10:17 AM


10:18 AM
Pensava em dizer e, talvez diga, que algumas manhãs eu choro, que em outras leio jornais e choro e que, ainda em outras, sou contemplado pela misericórdia da vida. Hoje é uma dessas manhãs.

Dizer chorar, evidentemente não quer dizer nada se não estiver acompanhado do sentimento correspondente. Chora-se de muitas coisas.

10:20 AM
Para mim, cada vez mais, a Bíblia, é pura poesia e fonte de inspiração. Aprendo sempre com aqueles judeus apaixonados que admiravam os gregos. Embora continue cético, cínico, agnóstico e apaixonado.

10:36 AM
Entre a espontaneidade do lembrar e o trabalho de lembrar, como um desejo de compreender o que passou, há uma investigação complexa. E tudo isso está intimamente ligado a uma teoria da imagem que interroga incessantemente o mistério da presença do passado, na imagem. A imagem no lugar do que já nao é, do que um dia foi.

10:38 AM
O tempo somos nós. E nós somos a narrativa do que somos. A minha memória é espontânea, vem em cores, alucinada e massacrante, com detalhes iluminados e brilhantes.

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Geléia geral, Geléia real


O fogo é debelado numa reserva florestal no interior de Minas Gerais mas, na Califórnia o governador já decretou estado de emergência. O fogo devastou uma área de mais de 5000 hectares.

As notícias vêm assim, em flocos, em glocos. O glocal geral, uma geléia geral, uma geléia real.

Frankfurt se rende a Paulo Coelho. O mundo se rende a Paulo Coelho, o grande mestre na arte de não dizer nada para todos. Uma tarefa para poucos. Tão poucos quantos os que podem ouvir Ná Ozetti derramar lamentos para uma platéia
ávida por aplaudir a lembrança da declaração universal dos direitos humanos. Sempre achei estranho homenagens aos mortos, sobretudo quando batem palmas nos enterros.

Líder direitista austríaco morre em batida de carro. Jörg Haider, líder austríaco, morreu quando se dirigia para o sítio da sua família, onde estava sendo comemorando o aniversário de sua mãe. Haider tinha 58 anos e a sua mãe completou os noventa.

As flores, a poesia, a perpétua luz dourada impressos nas páginas sépias recendem a tédio, a naftalina.

sábado, 11 de outubro de 2008

Natura


Firme e suave é a delicadeza do equilíbrio.

Os sentidos deslizam na virtude da cor.

Textura forte em
terciopelo verde.

expressão perfeita de forma e beleza,
imagem de puro esplendor.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Essas coca-colas



Um mundo compactado, um código com intermináveis senhas, lembranças criptografadas.

Uma lagoa e uma casa de fazenda iluminada, seca e fria durante a noite. Café e frutas. Água e terra. Lama e brincadeiras. Flores, sonhos e crianças, e saudades de saladas com coca-cola.

O mundo, muitas vezes, é uma coca-cola com saudades. Dentro disso, que para alguns nem bebida é, existe um gás. Há nele um efeito mágico, que faz o conteúdo negro lançar minuscúlas micro esferas cheias de luz.

Essas coisinhas, de existência tão curta, fazem vir de novo à vida, pela lembrança, toda a magia que a ilusão é capaz de fazer brilhar.

Uma salada com muito azeite, sal e limão, e pão.
Uma saudade vermelha e branca, com queijo brie.

Colores y Gramáticas


Tengo miedo de ciertas cosas.
De palabras elétricas, mexicanas, nordestinamente baianas.

Tengo ganas de ti.
De tu olor, color y toque gramatical.

Tengo celos de ciertas cosas.

Uma taça de chá quente,
O roçar do olho sobre a página,
A distância entre os lábios.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Poema Visual


Acordo e leio os jornais. Visito rapidamente a caixa de mensagens e respondo logo às urgências do trabalho. Tenho que preparar uma aula. Os livros estão selecionados sobre a mesa há algum tempo. O tema a ser apresentado requer uma reunião inédita de correntes do pensamento, muitas delas contraditórias. Os diálogos são, na maioria das vezes, ab_surdos.

A tarefa matinal tem início depois que a memória se recolhe.

Será a impossibilidade da linguagem que faz nascer o poeta? Lendo Octavio Paz, vivo, sempre mais uma vez, essa experiência de espanto e assombro diante do modo clássico, suavemente humano, grandiosamente sublime, como as palavras são capazes de elevar o espírito ao alto, lá de onde se vê a imensidão do abismo.

A luz invade a sala. Há luz. As palavras irradiam uma presença enigmática. O assunto da aula é o poema visual.

Por que poesia?

Desço as cortinas e procuro a suavidade, propícia à luz do pensar. O poema visual é o teu corpo. Na galáxia dos sonhos da minha esperança, vejo tua imagem impressa na indiferença do tempo.

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

A intimidade da flor



Santa Catarina, alemã tucunaré pataxó hã hã hãe, quem sabe holandesa, de Nassau pernambucana, bolsa Fullbright e conexões frankfurtianas de culturas industriosas. Uma falta de sentido colossal, cínica.

E, para completar, biscoitos judeus, sorvetes Häagen-Dazs,
pé-de-moleque e quebra-queixo suave.

A poesia é esse amontoado de palavras doces,
amontoado de medos, celos, ganas. Ganas de ti.
A poesia é o medo da bala perdida,
do desencontro no amor e das tristezas súbitas, fatais.

Esse poema é um medo de versos, de resenhas, prosas, novelas e contos.
Medo de certas e inevitáveis palavras.
De palavras que não voltam atrás, de saudades sem fim.

Saudades do léxico, da dúvida e das incertezas no mercado das idéias.
Feiras de livros, cereais, roupas e sorvetes de maracujá flutuando
sobre as águas paradas de todas as possibilidades.

sábado, 27 de setembro de 2008

Tempus Vernum



'El tiempo no está fuera de nosotros, ni es algo que pasa frente a nuestros ojos como las manecillas del reloj; nosotros somos el tiempo y no son los años sino nosotros los que pasamos'. Octavio Paz

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Museu e Memória


O que passou, passou. Dizem todos.

Mas para o poeta, diz Octavio Paz, "o que passou voltará a ser, voltará a encarnar. É um passado que re-engendra e reencarna. E encarna de duas maneiras; no momento da criação poética e, depois, como recreação, quando o leitor revive as imagens do poeta e convoca de novo o passado que regressa".

A memória, a história e o esquecimento hermenêutico de uma viagem pelo tempo único do poema. Sem cronos métricas avaliações, de durações passadas ou futuras, o poema visual soa saborosamente uma comemoração, do tempo presente.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Paisagem


Vejo a paisagem e acrescento aquilo que julgo inoportuno. O resultado final, ao contrário do que sempre espero, parece bem comportado. De todo modo espero que essas imagens signifiquem muito além das minhas "intenções". Muitas delas são claramente meros balbucios, formas inarticuladas, procuras de sentidos no emaranhado das cores e das formas.

As telas 'paisagens da primavera' são uma mostra disso.

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Primavera austral


Equinócio: dia e noite em singular simetria, ocasião em que têm a mesma duração. Na primavera austral, teu corpo de puro esplendor, é a palavra que o poeta nomeia. Duração eterna do tempo que tua existência proclama. Singularidades assimétricas nas estrelas das tuas constelações fotografadas pelo Hubble. Ar rarefeito, vago, quase irrespirável, do alto das montanhas que apontam o mar da Bahia.

Celebro a primavera no templo que existe em mim. Vejo na cor dessa pequena flor a intensidade da alegria e a delicadeza da dor.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Florescer.


As questões de Estado determinam uma lógica própria, cruel, que sempre termina por sacrificar o destino de muitos. Fugir da teia fria que molda o homem na conformidade da máquina da cidade é o desafio que todos esperam vencer. Fugir da decadência, ainda que por um único momento, é vislumbrar a maravilha de ter existido, ter vivido, ter amado, ter visto as cores, as ondas no mar, os vastos azuis das montanhas.

A primavera é o tempo do intenso caminhar da beleza, marca da promessa da cor. Signo puro da pureza. Vielas de silêncios e esperas. Abrir e fechar, guardar e mostrar. Permanente virtualidade da beleza.

Flor florescer. Nascer e surgir na umidade da luz, na passagem do tempo e na pele das constelações lácteas e brilhantes. Luz fluorescente, florescendo no vigor do verde espelhado em nossas pobres vidas. Nossas buscas intermináveis de sentido em cada taça de vinho, em cada baforada de cigarro, em cada beijo, em cada abraço.

O corpo clama paz e saúde. A paz clama o calor da alma, o calor do corpo na cor da flor e na pureza cristalina da água. O banho e o perfume envolvendo cada dobra do desejo, abrindo permanentemente a luta pelo prazer.


Nada de contabilidades e mercadorias futuras estocadas em bancos de dados e derivativos como barcos a deriva. Bolsas de previsões inúteis, frágeis, hospitalares, bolsas de sangue, horários marcados nos adesivos das agulhas. Cartões de crédito, cartões de entregas e de partidas. Resumos, colunas, palestras. Tudo numa pasta de papel craft forte e bem amarrado.

Tudo isso nada mais é que ficar em casa, em paz, ouvindo música, lendo, deslizando o corpo pelos espaços da alma, pelos corredores dos sentidos, pela interminável memória que guardo aqui.

O Jardim


Sonho primeiro
prima vera cidade
verdade verdadeira,
ocultar desocultando sempre,
e a cada vez,
a natureza da cor


é primavera quando nasce a cor
a paixão primeira da manhã
a palavra verdadeira
a natividade da flor

o jardim vem em sonhos,
a noite desce das estrelas
e a alma quieta contempla
a estrela brilhando na distância

A cor




Vermelho, azul, amarelo
rosas azulados e negros.

Noites e leites derramados
Ceus, borboletas e bois no pasto
Resíduos urbanos,
Fuligem e back tar

Verdes, violetas, blues
Colores mortales, finitos
RGB, Cian, # dd1c1c
Turmalinas redondamente ovais.

Sinônimos suaves ocupando a memória
cores molhadas de verde e de efeitos sem fim.

A rua de pedras com flores
Flores pequenas, na porta do supermercado
Nos cadernos da escola
No suco de melancia.

O absurdo é azul e a lembrança é brusca
A cor estendida na varanda
O desejo estampado na cortina das
tuas galáxias transparentes.

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Laelia purpurata


Os olhos vagueiam sobre objetos, coisas, mundo.

Enquanto distraidamente passeiam, imagens imemoriais deslizam pelo corpo.

O senhor do universo marca o rítmo desses movimentos.

Na caverna profunda da linguagem
pedras brutas dos sentidos matinais.

Elas são pontes suspensas nesse abismo de
espaço aberto e profundo

Tempo de cores, flores, primaveras,
verdades das primeiras horas da manhã.

O silêncio, provável poema,
saga matinal de colorido primor.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Green Grass


Desanimada é a vida sem palavras, dor silenciosa.

"Quanto mais alegre a alegria, mais pura é a tristeza nela adormecida".

O poema, palavras dolorosas, doces, puras. Nem sintaxe nem semântica, nem alegrias no reino dessa distância que não conhece fronteiras. Vem dourada a luz da manhã anunciando o amanhã que virá.

O tempo vela a chegada da luz dourada. Tu piel de cerejeiras em flor. Tu boca de carmines tempranos, como la luz dorada de la mañana. Tu aliento de palavras puras, calmas, claras.

Escuto o rumor das tuas sílabas em intervalos calculados, armadilhas de sintaxes e névoas de sentidos dispersos. A linguagem quieta, calada, quase muda.

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Sintaxe Pura



O sentido da imagem é azul. Sentidos azuis para semânticas horizontais. Significados claros, ditos com todas as cores, ocultos em todas as palavras. Sentidos obscuros, mal iluminados, transbordando violetas, amarelos com saudades rubras, cores de frutas, paixões violentas e manhãs de luz.

O sentido é o que você encontra no início da manhã, após o café forte e quente. Um chá e uma espera de sinal na tela. Um fragmento sonoro que é mais que uma melodia, é uma memória viva, vermelha e silenciosa.

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Um certo lugar


A poética do espaço metafórico, interminável, de tempo infinito. Altar onde a flor está sempre fresca e bela. A margem do rio é areia branca, fina e iluminada. O leite é um leito descendo rumo ao mar. Orillas del mar do Rio Vermelho do olhar desejo de saltar. Fragmentos suspensos no ar. Nuvens vãs rumo aos mares do sul. Azuis cifrados, criptografados em membranas de tempestades. Silêncio espectral, azul, silêncio sem cores.

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Inevitable




¿Por qué es inevitable que haya cuadros en las paredes?

sábado, 2 de agosto de 2008

A pergunta necessária


Max Weber foi um pensador alemão. Sociólogo e Filósofo, autor cuja autoridade raras vezes é contestada. E, ainda assim, para contestar a Weber é preciso uma fundamentação profunda. Caso contrário não passa de um deslize verbal.

Num pequeno texto intitulado Ciência e Política - duas vocações, Weber diz que nas Universidades Alemãs, ou pelo menos as do seu tempo, era feita a seguinte pergunta aos que aspiravam uma carreira acadêmica:

"Você se julga capaz de ver, sem se desesperar ou amargurar, ano após ano, passar à sua frente mediocridade, após mediocridade?"

Weber continua: "evidente" que os canditados sempre dizem sim. Para em seguida constatar a tragédia de que só pouquíssimos candidatos "suportam aquela situação sem grande prejuízo para suas vidas íntimas".

Será mesmo necessária essa pergunta? E no Brasil qual seria a pergunta a ser feita, considerando que além da mediocridade, as condições de trabalho e os salários provocam os mais drásticos prejuízos, para os responsáveis pela educação das novas gerações de brasileiros?

Algo precisa ser perguntado, algo deve ser respondido.

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Ciénega


Mundo de névoas e dúvidas. Penhascos de infinitos abismos rumo aos obscuros destinos da alma humana. Cavalos alados nas janelas de arranha-céus púrpuras, cintilantes e dourados. Sonhos de impossibilidades cósmicas. Spanish horses volando por pradarias e ladeiras que levam ao mar.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

O Parque Humano


Platão ensinou que a Política é a arte de conduzir rebanhos. Mas um tipo especial de rebanho. O estranhamente curioso e divertido nessa história é o fato dele considerar o homem um tipo de animal que é definido por atributos mui particulares.

Fazer considerações dessa natureza são perigosas, sobretudo quando sabemos que existe uma "indústria dos comentadores de Platão", como lembra o contemporâneo filósofo Cornelius Castoriadis.

O fato de que Platão conclua que o "rebanho" seja composto por "esses seres não alados, sem chifres, que só se acasalam com seus semelhantes" só reafirma a bondade do olhar do filósofo/poeta. É bem verdade que os seres devem ser bípedes, andar ereto e ter um olhar voltado para o alto.

A Política continua sendo a grande Arte. A grande Arte de compreender os mais elevados conceitos e traçar os destinos desse bípides não alados e sem chifres.

Escritores, Políticos, Financistas, Poetas, Estrategistas, Estadistas. Vivemos cibernéticas descidas aos infernos dos mares infestados de gráficos e tendências. É a antropotécnica tal como compreende e disserta Sloterdijk.

A grande política ainda está por vir. Não sabemos ainda quando virá. Nem mesmo sabemos se ainda virá.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Ladino



O judeu-espanhol ou ladino é uma língua semelhante ao castelhano. Estima-se que ainda é falado por cerca de 150 mil indivíduos em comunidades sefarditas em Israel, nos Balcãs, Oriente Próximo e norte de Marrocos; também é conhecida como espanhol sefardita e judeoespanhol.

Foi Elias Canetti, no seu livro A lingua Absolvida, quem fez uma inédita relação entre a língua alemã e essa língua mágica, que traduz e adiciona termos do hebráico ao castellano. Na verdade inclui também traduções do árabe para o espanhol. Todas essas informações estão disponíveis na Wikipedia.

Distinto da história fascinante de uma língua é a experiência de ouví-la hoje na voz, ensandecidamente bela, de Yasmin Levy.

Filha de Yitzhak Levy, que foi um pesquisador pioneiro da música conhecida como Ladina, Yasmin respirou, desde a infância, igual a Canetti, a magia desse encontro maravilhoso de culturas.

Do outro lado do arco encontro Elias Canetti retomado por Peter Solterdijk para falar das intermináveis loucuras da vida humana. A loucura que analisou com profundidade em Massa e Poder, publicado em 1960 e, pelo qual, foi agraciado com o Prêmio Nobel em 1981.

Canetti, que possuía a "riqueza quase ferina do olhar", é, provavelmente, o autor do século 20 que mais refletiu", como diz o seu biógrafo Hanuschek,

Yasmin Levy, a Música, as imagens e uma vida de sonhos sempre distantes. Palavras e pedidos, súplicas e desesperos. O mortal passar do tempo, passar de horas a fio e a frio, passar de horas vagas para nossas almas. A vida e seus insucessos definidamente bem sucedidos.