sábado, 31 de outubro de 2009

Runas


Mergulhado na leitura de LTI, de Victor Klemperer, descubro as Runas evocadas no período negro da fome de morte. As palavras trocam de palco, trocam de cenário e sentido. Proliferam currículos e memórias, proliferam esquecimentos e temores. Desço as esquálidas dobras do caminho e encontro as Runas do Esquecimento, dos Medos e das Fantasias.

Um sorriso fica esquecido no canto da página, os olhares tomam outras direções e procuram o vão vazio da escada. Debaixo dela estão guardadas as memórias e os fragmentos esquecidos nas caixas embaladas, com fitas do Senhor do Bomfim. Os deuses estão empacotados em conserva e exalam cheiro de naftalina, alfazema e arruda.

As imagens, aquelas que traduzem o ofício do poeta, vagam em manhãs de quartas feiras e de domingos insondáveis. Portugal me espera, me desespera, me procura. Portugal é essa tristeza que guardo de ti nesse pós doutorado digital que vai custar mil euros, mil palavras e outros valores, esquecidos nalguma dobra do parque de Palermo, de alguma calle Florida.

Olho as Runas, os oráculos da nossa história e da tua enigmática ausência. Percebi tudo isso em um domingo de manhã. Estávamos tomando um café na cozinha. Eu olhava teus olhos e desejava tua existência cruzar perpetuamente a minha. As Runas dizem que o tempo é de silêncio. Não creio nelas. Creio em ti pois tenho certeza que não dizes nada. Não ouço mais que o teu olhar, teu enigmático desaparecimento.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

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sem exclamações, sem pontos e vírgulas.
aqui tudo é indagação, dúvida, pergunta.

onde estou, onde estás, porque não respondes
o que seria do mundo sem vc.

Se quiser saber mais, pergunte. Tenha dúvidas, investigue, procure, corra atrás.

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quinta-feira, 29 de outubro de 2009

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quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Interrogações




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Traço com asteriscos a linha que divide o tempo em passado e presente. Tento dominar o turbilhão de palavras e idéias que aparecem de todos os lados. Como gárgulas que ganham vida, as palavras fazem voos razantes sobre os desejos e os planos de organizar a vida do futuro, dos próximos dias. Tropeços e ansiedades brotam dos acontecimentos, indiferentes ao poder de determinação que havia sido combinado dias atrás. Erros, se assim se pode dizer, são cometidos involuntariamente. Eles resultam, quase sempre, de uma exagerada forma de expressar sentimentos e desejos. Tudo parece residir no plano das emoções sem passar pelo planejamento sistemático do pensamento lógico. É um jorro, um desaguar de palavras carregadas de interrogações e fantasias. Uma espécie de verborrágica sessão de análise sem a menor preocupação em sistematizar nada. Sentimentos e emoções que chegam, na maior parte das vezes, entre quase ódios e indeterminadas raivas.

Vejo o rostinho de Isabela desmanchando em lágrimas só porque a mãe não deu o brinquedo. Lágrimas e sentimentos que parecem anunciar o fim do mundo. Descabelada, o rosto expressa um sofrimento que parece traduzir as dores mais trágicas. Logo em seguida tudo cessa e cala, para voltar à normalidade, e o mais lindo sorriso surgir no rosto da criança, que viveu tudo aquilo como um sonho, uma distante e inexistente fantasia.

A filosofia é o pensamento sistemático. Qual filosofia? A interrogação não é uma exclamação, não é um contar vitórias ou atitude de vanglória soberba. A interrogação traduz a fragilidade impressionista que navega em ondas de cor, na delicadeza da flor, na certeza da morte, na dor do adeus. Tudo nessa interrogação é carregado da fragilidade humana, da indeterminação das horas, da esperança daqueles que não ultrapassam as definitvas portas do inferno.

Eis o que vejo, o que sinto e interrogo nessa manhã de pouca luz, de nuvens carregadas que estão além dos edíficios que vejo agora na varanda dessa cidade, megalópolis assustadora.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Espera


A praia da Espera é calma. Nela desembarcam os mercadores de flores e esperanças. A palavra sobre a pedra é levada pela maré. O desejo espreita a resposta. A calma assenta o olhar. Megapixels do teu olhar marcam o nascer do dia.

domingo, 25 de outubro de 2009

Brincar




A linguagem é um jogo, um jogo de linguagens. Mas esse jogar é uma brincadeira que recomeça tão pronto o jogo termina. A criança joga e nós jogamos fora as palavras ou guardamos silêncio e prudência naquilo que não dizemos.

O que está em jogo parece ter a importância do próprio destino. Mas, quando brincamos, o jogo está associado ao prazer da criança quando vê outra criança que, sem mesmo perguntar primeiro pelo nome, simplesmente indaga: você quer brincar?

A filosofia cuida da linguagem desde o seu começo. Durante toda a sua vida, essa moça tão cheia de sonhos, sempre escarafunchou a caixa da linguagem. Essa caixa guarda os segredos e o destino do homem. E das mulheres, é claro.

O e-mail tinha duas pequenas perguntas. As perguntas eram simples mas difíceis de ser respondidas. O silêncio, na caixa da linguagem, é o oculto que foi para a face escura da lua. Talvez definitivamente deletado do desejo ou transformado em angústia e dúvida.

O jogo é a vida que escolhemos a cada lance do peão. A linguagem é quem diz o lugar do peão e quais as estratégias na construção dos sonhos, nossa procura para estimular em nós o melhor da humanidade. Para muitos, isso é uma brincadeira pueril, para outros é uma atividade difícil, transformadora, mas sempre muito perigosa.

A pobreza da vida é expressa na pobreza da linguagem. Não só no uso dos termos mas também nas formulações limitadas, na ausência dos vôos do espírito, na incapacidade de sonhar e criar novos mundos. Tudo é claro, demasiado dado. Aparentemente óbvio. E a vida passa entre um gole e um 2 a 1.

Os limites entre a pobreza de espírito e a exuberante abundância do reino da poesia vão tatuando nossa alma ao longo da vida. Cada marca da nossa história, o orgulho e o prazer mais elevado que nos permitimos viver, remete sempre a Shiller: “É o espírito que constrói o corpo à sua imagem”.

sábado, 24 de outubro de 2009

3:45 am




É madrugada. Releio, mais uma vez, a entrevista de José Saramago concedida ao jornal Folha de São Paulo. As palavras proferidas pelo escritor, que já alcançou a graça dos 86 anos, certamente traduz pensamentos e sentimentos de muitos.

São passados, desde então, quarenta horas de frio e fome viral. Uma desorientação espacial e emocional. Onde estou e o que sinto quando olho ao lado e vejo uma pequena flor delicada? Um lirismo recheado de terríveis intenções que carece de uma fundamentação metafísica.

A noção de comunicação formulada por Norbert Winer tornou-se ainda mais verdadeira. A arte de não dizer nada a todos. A linguagem torna-se, sempre mais, metafórica. Os sentidos das palavras mudam a cada frase. Na frase seguinte os sentidos trocam de enredo, enigmaticamente trocados por sentidos novos e absolutamente sem sentido.

As multidões, os grandes números, os milhões de leitores são cifras traduzidas em possibilidades publicitárias. Todos, em seus notebooks exibem suas intimidades. Atores, humoristas, políticos, empresários, poetas, encanadores, estudantes, todos eles igualadas na indiferença de todos. De repente tudo ficou preto de gente. A expressão de Elias Caneti ressoa nas reflexões de Sloterdjik enquanto Felipe Pondé, num relâmpago de celebridade, faz questão de falar dos charutos fumados e das taças de vinho derramadas sobre uma charla, absurdamente esquecida imediatamente.

A memória e os ressentimentos de rever os velhos amigos encharcados de academia e dos relatos insuportáveis chamados teoria. Todos citando todos num claro retorno babélico ao prazer de nada dizer e tudo ser compreendido. Basta o olhar de Beatriz, basta a música lânguida e penetrante. Surdos falando alto, cegos fotografando.

Línguas e arrogâncias recheadas de músculos e viroes. Não verás virose com essa. Dengues hemorrágicas traduzidas em belos espetáculos de cores e bossais biólogos, medidores de dilatações anais de insetos vermelhos, exibindo uma pança cheia de projetos e recursos estatais.

Espero o efeito da efedrina e da cafeína se aproximar do próximo neurônio. A ex-aluna entre aspas enviando mais um scrap para os amigos que irão bombar a balada na boca da noite e na clínica psiquiatrica.

Desligo. O avião não vai chegar. Mas a beleza está a minha frente e diante dela o mundo se cala. A beleza, agora no meu sonho, é esa criança oriental, essa menina de 3 anos ajudando a mãe a fechar a bolsa. A pureza contaminada pelo desejo de fazer algo.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Andrômeda



Acordo e leio os jornais. Visito rapidamente a caixa de mensagens e respondo logo às urgências do trabalho. Tenho que preparar uma aula. Os livros estão selecionados sobre a mesa há algum tempo. O tema a ser apresentado requer uma reunião inédita de correntes de pensamento, muitas delas contraditórias. Os diálogos são, na maioria das vezes, absurdos.

A tarefa matinal sempre tem início depois que o esquecimento se faz presente.

Será a impossibilidade da linguagem em dar conta do sentido profundo e último das coisas e do mundo que faz nascer o poeta? Lendo Octavio Paz, sempre mais uma vez, vivo essa experiência de espanto e assombro diante do modo clássico, suavemente humano, quase cruel e sublime como as palavras são capazes de elevar o espírito ao alto, lá de onde se vê a imensidão do abismo.

A luz invade a sala. Há luz. As palavras irradiam uma presença enigmática. Ainda é possível esse gênero narrativo que se arrasta desde tempos imemoriais? O assunto da aula é o poema visual. Naqueles livros, ali na minha frente, autores caminham por veredas estranhas procurando saber como é possível o lirismo sobreviver, ainda hoje, no rarefeito e precário mundo construido pelo homem.

Por que poesia? A pergunta é logo descartada como inútil. Se algo, seja o que for, não puder ser convertido em venda, negócio ou prece a Deus, então não há interesse.

Mas se for convertida em negócio ainda será poesia? Há poesia com desenvolvimento sustentável? Uma poesia do eucalipto industrial num diapasão poemétrico com as mineradoras, escavando as entranhas da terra?

Mas há luz e há alguma poesia. Essa doce sombra que abriga o homem da ferocidade da clareza.

Desço as cortinas e procuro a suavidade, propícia à luz da poesia. O poema visual é o teu corpo. Tua imagem impressa na indiferença do tempo. A galáxia dos sonhos da minha esperança.

sábado, 17 de outubro de 2009

Ybicuys



Procuro manter distância dessa literatur produtivista Gabriel Chalita Opus Dei, mas não deixo de ver tudo isso escoando pelos bueiros que passam longe dos muros dos Jardins.

Vejo uma mistura da Folha de São Paulo, Rede Globo, Record, El País, La Nación, Gramma, New York Times.

… tudo resumido em uma única notícia, que poderia estar em qualquer lugar: na selva, com seus micos leões dourados ou nas vitrines iluminadas por neóns suavemente lilases. Um mundo compactado, um código com intermináveis senhas, lembranças criptografadas. Uma lagoa e uma casa de fazenda, iluminada, seca e fria durante a noite. Café e frutas. Água e terra. Lama e brincadeira. Flores, sonhos e crianças, e saudades de saladas com coca-cola.

O mundo, muitas vezes, é uma coca-cola com saudade. Dentro disso, que para alguns nem bebida é, existe um gás. Nesse gás, um efeito mágico faz o conteúdo negro lançar minúsculas esferas cheias de luz. Coisinhas… de existência tão curta… trazem à vida, pela lembrança, a magia que a ilusão faz brilhar.


O filme cheio de cores, gritos e dores. O café está quente. Melhor dar um pause. A imagem congela no rosto inquieto da mullher. Uma saudade vermelha e branca. Uma salada com muito azeite, sal, limão, e pão.

Isso tudo é política baiana, brasileira. Olho e vejo a cultura brasileira como um resultado sincrético da rede globo, futebol e nelsonrodrigues. Peço paciência pela criptografia. Mas, com uma boa senha, é possível, desse ponto de partida, encontrar Gregório de Matos e Nelson Cavaquinho, passando, evidentemente, por Gilberto Freyre, Antônio Risério e Dorival Caymmi. A Bahia, essa grande agência de publicidade, é o palco dessa cultura.

O Brasil é uma paróquia e uma paródia. Tiradentes, Ouro Preto, Pindamonhangaba e Santo Amaro da Purificação. A Tarde, Jornal do Brasil e uma Folha cheios de notícias, cheios de silêncios, de nadas, mas com preciosas imagens das marginais Pinheiros e Tietê, engarrafadas até o limite do mau cheiro. Shoppings Iguatemis, Salvadores, Itapebis, Itororós e Ybycuys de carnes ao sol.

Paciência, isso está criptografado!
No mundo em que vivemos, o cuidado em embalar palavras é desmedido.
Tudo pode significar tudo e nada ao mesmo tempo.
É preciso tempo, palavras, esquecimento.

Santa Catarina, alemã tucunaré pataxó hã hã hãe, quem sabe holandesa, de Nassau pernanbucana, bolsa Fullbright e conexões frankfurtianas de culturas industriosas. Uma falta de sentido colossal, cínica.

E, para completar, biscoitos kasher, sorvetes Häagen-Dazs, pés-de-moleque e suaves quebra-queixos.

A poesia é esse amontoado de palavras doces, medos, celos, ganas. Ganas de ti.
Temores de balas perdidas, tristezas súbitas ou crônicas.

Este poema é um medo de resenhas, de versos, prosas, novelas e contos.
Medo de certas e inevitáveis palavras.
De palavras que não voltam atrás, de saudades sem fim.

Na caverna dos Cíclopes tem televisão de plasma. Ninguém está na tela. Ulisses salta fora com seus companheiros. Esperam as magias sexuais de Circe. É sempre melhor sonhar, é sempre melhor nadar no mar azul das ilhas desconhecidas.


Saudades do léxico, da dúvida, das incertezas no mercado das idéias.
Feiras de livros, sorvetes de maracujá flutuando sobre as águas paradas de todas as possibilidades.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Romance


Queria que ela vestisse para mim as calcinhas que comprei para ela.

Fiz um composição com cores puras e serenas. Criei um dispositivo para que a intensidade da luz mudasse ao longo do tempo em que ficaríamos juntos. O tempo que ela ia tirando as calcinhas que comprei para ela.

Ela gostava de ficar bonita para mim. Disse isso muitas vezes e eu via quanto, a cada dia, ela ficava sempre mais bonita. Ela era a festa dos meus olhos.

Com ela aprendi a amar. Fodíamos! Eu acordava bem cedo para limpar a casa esperando sua chegada. Não deixava a presença de qualquer vestígio de dedo nos vidros da janela ou sujeiras ocultas no tapete.

Combinei tudo para que houvesse harmonia entre sons, perfumes e cores. As gérberas, iluminadas pela luz que vinha da janela do banheiro, coloriam o corredor. Essas imagens foram ganhando cada vez mais um colorido e surrealismo photoshopico e, ainda hoje, restam algumas por aí.

Depois da casa limpa e do banho, descia para a padaria da esquina. era lá que eu via o mundo dos homens. o ônibus, o ponto de taxi, a banca de revista e o cheiro do café. Trabalhadores da construção civil, do serviço doméstico e todos aqueles de renda mais baixa frequentavam a espelumca do bar restaurante que ficava do outro lado da rua.

Pensei em escrever um romance, até descobrir que a coisa mais ridícula que alguém pode dizer e pensar é em escrever um romance. Depois de anos de vida num trabalho medíocre o sujeito acha que pode e deve escrever um romance.

Escrever um romance para que, contar o que? Talvez só para contar e lembrar aquela luz iluminado o quadro e o vaso com gérberas vermelhas, laranja e amarelas, no chão do corredor. Fui ao photoshop ampliar o ambiente do quarto. Eliminei a parede e construi a imagem da montanha, soberba sobre o mar. Imagens e algo mais.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Esquecimento Global



Em oposição ao aquecimento global, deve-se pensar no esquecimento global. Esquecer que somos humanos e que acreditamos na salvação da alma e na dor que impingimos aos frangos, aos bezerros e aos outros bichinhos que, quando assados ou grelhados, são uma delícia.

Hoje, ainda hoje, o judeu Luis Felipé Pondé (os judeus se apresentam sob os mais diversos nomes – eu só conhecia os Goldfingers e os Safra), a quem tenho uma grande admiração, falava exatamente da cara de pau desses defensores das galinhas mortas que morreram na cruz para alimentar, com suas carnes brancas, as nossas barrigas adiposas e imorais. Dias difíceis esses nossos em que as pulgas são mal vistas e as baratas odiadas. O homem transporta sua estupidez para todos os seus propósitos, sobretudo para os mais nobres.

No meio do caminho há uma pedra. Pedras são poemas graníticos, perfumados com sangue e dor. Cora Coralina não é cobra coral colorida graduada em Comunicação e nas suas teorias apavorantes, que sofrem de hipodermias culturais. Tem, olha só o verbo, gente que tem cultura e currículo Lattes de dar inveja e náuseas. Aliás, quando ouço alguém falar em Currículo Lattes pergunto sempre aos meus botões de carne e ovo se ‘os cães Lattes e se a caravana passa’. Difícil dizer algo nesse barulho ensudercedor do Enem, das medidas tecnicamente mornas da ABNT.

Ah sim, e, para completar, tudo que aqui foi dito pode ser enfiado no Lattes. Não no meu, é claro.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Media-lunas


No livro de todas as coisas falta a Lua. A lua oculta aletéias do ser e dúvidas do engano que se enganou. Difícil dizer da flor que diz com cor, a dobra do rio e a sombra da árvore do lago verde, azul do teu ser.

Inhotim, jabuticabas sem fim, confins dobrando o caminho para João Monlevade, de tristezas e horas perdidas, no trânsito, na espera na mensagem, da ausência do sinal no celular, do wifi inexistente no caminho desse Nanuque gigante, de pedras lisas e distantes.

Crianças, essas alegrias da vida, sorriem para mim. Faço graças e me escondo atrás da cadeira, da coluna. O sorriso se espalha. Não é mais dia, nem mesmo noite. É uma lua eterna, brilhante, ocultando sempre o outro lado do sonho que nasce por toda parte, por toda flor, por toda cor que corre nas veias do desejo de te ver.

São convites media-lunas, meio estranhas, entranhas que brotam no vigor da primavera. Nem mesmo as clareiras, resplandecentes no caminho da floresta, iluminam mais a vida que essas palavras que leio no e-mail, no meio dos teus lábios carmim.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Onde estou, onde estás?


A imagem é Cora,
Coralina.


A palavra é um lugar.

Cabul, Barranquilla, Viña del Mar.

Onde estou, onde estás?

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Isla Negra



Nunca pensei em ter leitores. Agora, com este bendito blog, sou informado de que os tenho. Muitos deles são alunos meus e de outros professores, meus amigos, que obrigam esses "pobres meninos" a ler tão mal elaboradas frases. Frases que, muitas vezes, compro na cesta das frases prontas. Esta semana, por exemplo, comprei uma por três reais.

Dizia assim: “Meu Deus, dai-me paciência, porque, se me der força, mato um!”.

Pensei em comprar frases mais longas, mais cheias de conteúdos como aquela que dizia: “estou me endividando até os ossos osteoporosos”. Esta, aliás, eu mesmo fiz, mas, por ela, não achei um tostão sequer. E eu, precisando de tanto dinheiro para comprar um terno Armani, uma camisa Dudalina e uma caneta Mont Blanc. Nem penso que com esssas frases eu pudesse comprar um Chrysler PT Cruiser. Soube que, quando desregulado, gasta muita gasolina, o que seria fatal para meu salário de professor que vende frases quase prontas a preços módicos.

Hoje, tentei comprar uma puta, linda, loira e alta. Queria comprar a atenção do olhar que ela vendia. Cobrou-me trezentos reais apenas por tocar seu corpo, marcado por mãos carinhosas e solitárias. Sexo, não faço com putas, não pago por sexo, não pago por amor. Pago por imagens, por ilusões perceptivas e por fantasias bíblicas, sobretudo as do Velho Testamento.

Nunca pensei em ter leitores, nem alunos. Apenas sonhei um dia que poderia ter o teu amor. Mas, pobre de mim e do meu jardim, que só floreceu flores de plástico com gérberas ausentes e medrosas, tal qual o jardim descrito por Bioy Casares en La Invención de Morel. Apático, ridículo, carregado de temores e fantasmas banhados por marés que sobem sempre às cinco en punto de la tarde. Siempre que siento la distancia que criaste entre el deseo y el sueño.

Nunca pensei que pudesses pensar em mim. Mas vejo que tenho leitores, alunos e estranhos e raros admiradores. espalhados por esse mágico continente latino americano. Mañana, por la mañana, quando la noche no sea mas noche y el dia empeze com sus luzes matinales estarei num avião da LanChile a caminho de Santiago, a camino de la Isla Negra del poeta, de la desaventurada ventura de ser um poeta que espera, una vez más, mirar la luz dos olhos teus.

domingo, 4 de outubro de 2009

Omega 3



A hora abre a porta e fecha o sentido do aroma do café. Bolhas de sabão sopram a brisa lenta e curva que dobra o infinito desejo de voltar pelo lado oposto de Las Cortaderas. Foi em Bogotá, a caminho de Santa Marta, que encontrei os teus seios pontiagudos banhados em cores caribenhas e azuis. Nas tardes de verão, nossas mãos suavam lentamente entre os dedos, cruzando as curvas retilíneas do Parque de Palermo, que apenas existia enquanto layer do photoshop. Era um dique do Tororó embaçado pela umidade da Bahia de larga barra e intermináveis negócios, pendurados nos logotipos das cabras e dos cabritos, berrando mééé pelos sertões de Euclides e das mansões debruçadas sobre a marina da avenida Contorno.

Não sou mais que um personagem perambulando páginas sem editores reconhecidos ou blogs afamados. Não têm fama nem celebridade essas palavras que apenas rondam rodapés das Confissões de Santo Agostinho. Nem mesmo São Paulo, com seus splendorosos edifícios cinza da avenida Mena Barreto, pode aplacar o irracionalismo do apóstolo homônimo, que derrama escamas de sardinhas banhadas em omega três.

Nasci no Yon Kippur, mas paguei quatro reais para entrar na Sinagoga de onde pude observar a Torre Malakoff no reflexo do café expressamente forte do Starbucks. Aperto o botão da Cannon de quize mega pixels e o resultado é uma imagem luminosa das velas que acendi na igreja da Liberdade, pedindo pela tua saúde e pelo funcionamento do teu intestino, que é o mesmo relógio que aponta ponteiros em direções que nunca sou capaz de alcançar.

Ai de ti Copacabana, ai de mim que corro pela Lagoa Rodrigo de Freitas, poluída de drogas perigosas e arrogantes. Nem mesmo o Parque Lage, com suas macunaímicas piscinas banhadas de feijoadas oleosas, seria capaz de eliminar o cheiro pesado da gordura que corre das ladeiras do Humaitá. Lembro as deletadas imagens que fui obrigado a esquecer, todas elas apagadas do disco rígido, mas indeléveis nos desejos impressos no suave amor que guardo por ti. Nem mesmo Salomão nos seus dias de glória podia prever conceitos naufragados em metodologias escassas e enganosas.

Caminho rumo ao cais da minha rua porto seco pirajá. Encontro um vinho do Porto, um azeite virgem, Galo, bacalhau de Alesund, romarias de grutas virgens e Lourdes. Madonna mia, cabalísticas aceleradas pelo CrossFox de Sthefany, embalando as britadeiras esculhambadas pelas baterias arriadas e ácidas. É noite, os fárois iluminam o túnel apagado na escuridão das sessões analíticas das topologias lacanianas. É quase como aquele jantar que o chef do Fasano fez lá em casa, com ingredientes vindos do Piauí. Na verdade, era tudo africano, tudo africado pelas páginas de revistas pornôs, decoradas pelas gráficas suspensas no ar.

Tudo isso me veio à mente neste domingo em que contemplo a ponte que une o nada ao absoluto prazer de pensar que você pensa em mim.

sábado, 3 de outubro de 2009

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sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Evelyn Glennie



Ouvir Evelyn Glennie sob a regência de Kazen Abdullah é um luxo situado "mais do lado de Eros que de Tânatos, mais do lado do ser que do devir, mais do lado da memória que do esquecimento".

É ser arremessado para o momento em que "algo de metafísico continua a habitar nossos desejos de gozar, como os deuses, as coisas mais raras e belas".

A imagem do ingresso para a Sala São Paulo é um não esquecer que a vida floresce na primavera do desejo, da lembrança que abraça a saudade que tenho de ti. Las fuerzas extrañas que Borges lembra de lembrar quando aponta La Invención de Morel como uma obra perfeita.

Tu és a obra perfeita que minha incoerência verbal nunca consegue traduzir.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Tédio Digital


Tédio é, em alemão, matar o tempo. A morte ronda homens e mulheres na indeterminação da vida. Morre-se velho, morre-se jovem. Lembro uma música de Gilberto Gil:

Era um rapaz de vinte e cinco anos
Hoje ele morreu atropelado em frente à companhia
de seguro
Oh! que futuro!
Oh! Rapaz de vinte e cinco anos


Como esquecer que somos frágeis e que a vida é essa indeterminação e que, por isso mesmo, quando encontramos algo que nos faz viver e sentir a vida vibrar devemos nos agarrar a isso, com toda força que ela nos dá?

Quero continuar vivendo como se hoje fosse o primeiro dia da vida, como se hoje fosse o último dia da vida. O dia nasce e procuro as flores, o dia anuncia a hora do crepúsculo e meus olhos procuram os teus.

Aqui, por onde meus olhos procuram os teus, não há tédio, só esperança de ver mais uma vez o dia nascer e encontrar o teu olhar que brilha no esplendor da vida, da alegria e da primavera em flor.