segunda-feira, 29 de setembro de 2008

A intimidade da flor



Santa Catarina, alemã tucunaré pataxó hã hã hãe, quem sabe holandesa, de Nassau pernambucana, bolsa Fullbright e conexões frankfurtianas de culturas industriosas. Uma falta de sentido colossal, cínica.

E, para completar, biscoitos judeus, sorvetes Häagen-Dazs,
pé-de-moleque e quebra-queixo suave.

A poesia é esse amontoado de palavras doces,
amontoado de medos, celos, ganas. Ganas de ti.
A poesia é o medo da bala perdida,
do desencontro no amor e das tristezas súbitas, fatais.

Esse poema é um medo de versos, de resenhas, prosas, novelas e contos.
Medo de certas e inevitáveis palavras.
De palavras que não voltam atrás, de saudades sem fim.

Saudades do léxico, da dúvida e das incertezas no mercado das idéias.
Feiras de livros, cereais, roupas e sorvetes de maracujá flutuando
sobre as águas paradas de todas as possibilidades.

sábado, 27 de setembro de 2008

Tempus Vernum



'El tiempo no está fuera de nosotros, ni es algo que pasa frente a nuestros ojos como las manecillas del reloj; nosotros somos el tiempo y no son los años sino nosotros los que pasamos'. Octavio Paz

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Museu e Memória


O que passou, passou. Dizem todos.

Mas para o poeta, diz Octavio Paz, "o que passou voltará a ser, voltará a encarnar. É um passado que re-engendra e reencarna. E encarna de duas maneiras; no momento da criação poética e, depois, como recreação, quando o leitor revive as imagens do poeta e convoca de novo o passado que regressa".

A memória, a história e o esquecimento hermenêutico de uma viagem pelo tempo único do poema. Sem cronos métricas avaliações, de durações passadas ou futuras, o poema visual soa saborosamente uma comemoração, do tempo presente.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Paisagem


Vejo a paisagem e acrescento aquilo que julgo inoportuno. O resultado final, ao contrário do que sempre espero, parece bem comportado. De todo modo espero que essas imagens signifiquem muito além das minhas "intenções". Muitas delas são claramente meros balbucios, formas inarticuladas, procuras de sentidos no emaranhado das cores e das formas.

As telas 'paisagens da primavera' são uma mostra disso.

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Primavera austral


Equinócio: dia e noite em singular simetria, ocasião em que têm a mesma duração. Na primavera austral, teu corpo de puro esplendor, é a palavra que o poeta nomeia. Duração eterna do tempo que tua existência proclama. Singularidades assimétricas nas estrelas das tuas constelações fotografadas pelo Hubble. Ar rarefeito, vago, quase irrespirável, do alto das montanhas que apontam o mar da Bahia.

Celebro a primavera no templo que existe em mim. Vejo na cor dessa pequena flor a intensidade da alegria e a delicadeza da dor.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Florescer.


As questões de Estado determinam uma lógica própria, cruel, que sempre termina por sacrificar o destino de muitos. Fugir da teia fria que molda o homem na conformidade da máquina da cidade é o desafio que todos esperam vencer. Fugir da decadência, ainda que por um único momento, é vislumbrar a maravilha de ter existido, ter vivido, ter amado, ter visto as cores, as ondas no mar, os vastos azuis das montanhas.

A primavera é o tempo do intenso caminhar da beleza, marca da promessa da cor. Signo puro da pureza. Vielas de silêncios e esperas. Abrir e fechar, guardar e mostrar. Permanente virtualidade da beleza.

Flor florescer. Nascer e surgir na umidade da luz, na passagem do tempo e na pele das constelações lácteas e brilhantes. Luz fluorescente, florescendo no vigor do verde espelhado em nossas pobres vidas. Nossas buscas intermináveis de sentido em cada taça de vinho, em cada baforada de cigarro, em cada beijo, em cada abraço.

O corpo clama paz e saúde. A paz clama o calor da alma, o calor do corpo na cor da flor e na pureza cristalina da água. O banho e o perfume envolvendo cada dobra do desejo, abrindo permanentemente a luta pelo prazer.


Nada de contabilidades e mercadorias futuras estocadas em bancos de dados e derivativos como barcos a deriva. Bolsas de previsões inúteis, frágeis, hospitalares, bolsas de sangue, horários marcados nos adesivos das agulhas. Cartões de crédito, cartões de entregas e de partidas. Resumos, colunas, palestras. Tudo numa pasta de papel craft forte e bem amarrado.

Tudo isso nada mais é que ficar em casa, em paz, ouvindo música, lendo, deslizando o corpo pelos espaços da alma, pelos corredores dos sentidos, pela interminável memória que guardo aqui.

O Jardim


Sonho primeiro
prima vera cidade
verdade verdadeira,
ocultar desocultando sempre,
e a cada vez,
a natureza da cor


é primavera quando nasce a cor
a paixão primeira da manhã
a palavra verdadeira
a natividade da flor

o jardim vem em sonhos,
a noite desce das estrelas
e a alma quieta contempla
a estrela brilhando na distância

A cor




Vermelho, azul, amarelo
rosas azulados e negros.

Noites e leites derramados
Ceus, borboletas e bois no pasto
Resíduos urbanos,
Fuligem e back tar

Verdes, violetas, blues
Colores mortales, finitos
RGB, Cian, # dd1c1c
Turmalinas redondamente ovais.

Sinônimos suaves ocupando a memória
cores molhadas de verde e de efeitos sem fim.

A rua de pedras com flores
Flores pequenas, na porta do supermercado
Nos cadernos da escola
No suco de melancia.

O absurdo é azul e a lembrança é brusca
A cor estendida na varanda
O desejo estampado na cortina das
tuas galáxias transparentes.

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Laelia purpurata


Os olhos vagueiam sobre objetos, coisas, mundo.

Enquanto distraidamente passeiam, imagens imemoriais deslizam pelo corpo.

O senhor do universo marca o rítmo desses movimentos.

Na caverna profunda da linguagem
pedras brutas dos sentidos matinais.

Elas são pontes suspensas nesse abismo de
espaço aberto e profundo

Tempo de cores, flores, primaveras,
verdades das primeiras horas da manhã.

O silêncio, provável poema,
saga matinal de colorido primor.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Green Grass


Desanimada é a vida sem palavras, dor silenciosa.

"Quanto mais alegre a alegria, mais pura é a tristeza nela adormecida".

O poema, palavras dolorosas, doces, puras. Nem sintaxe nem semântica, nem alegrias no reino dessa distância que não conhece fronteiras. Vem dourada a luz da manhã anunciando o amanhã que virá.

O tempo vela a chegada da luz dourada. Tu piel de cerejeiras em flor. Tu boca de carmines tempranos, como la luz dorada de la mañana. Tu aliento de palavras puras, calmas, claras.

Escuto o rumor das tuas sílabas em intervalos calculados, armadilhas de sintaxes e névoas de sentidos dispersos. A linguagem quieta, calada, quase muda.