segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Copenhague


Li, mais uma vez, as palavras veementes de Fidel Castro. A luta contra os poderosos não poderia ter uma voz mais altiva que a desse herói latino americano.

Posso, graças a elas, ver do alto nas ruas, os nomes de Ortega y Gasset, Jorge Luis Borges e Leopoldo Lugones. É fabuloso ver, assim do alto, esses nomes cravados no mapa da cidade. Estou caminhando em volta do Jardim Botânico e as flores orientam o caminho. As palavras de Fidel são carregadas no vento. Elas evocam Calderón de La Barca e las orillas de los poemas de Neruda. João Cabral de Melo Neto e Celso Furtado sentados na praça de Xique Xique, esperando Lampião.

Na Terceira Margem do Rio eu vi meu pai. Vi Guimarães Rosa nas barrancas do São Fracisco indo para a Alemanha. Cegos, coriscos. Não vi mais nada, só ouvia as palavras claras de Fidel Castro abrindo nossos olhos para o mundo.

domingo, 27 de dezembro de 2009

Media-lunas


La imagem se sustenta en sí misma, sin que le sea necesario recurrir ni a la demonstración racional ni a la instancia de un poder sobrenatuaral: es la revelación de sí mmismo que el hombre se hace a sí mismo. Octavio Paz

Pelo sim, pelo não


O ser humano não costuma falhar, e nada faz com que uma pessoa se desinteresse mais rápido do que ter a certeza de que a outra está definitivamente conquistada. Danusa Leão, domingo, verão.

O certo é que o ser humano não costuma falhar no que diz respeito ao amor.

Mariana não tinha dúvida, o fim estava próximo. As agulhas foram retiradas e os drenos também. O seu diploma fora guardado numa caixa especial, primorosamente feita em madeira de lei. O pai, os filhos, os avós, o natal, a água mineral chegando, a cortina balançando, tudo era enigmático naquela sala. Uma palavra foi pronunciada suavemente.

A televisão está desligada, o notebook dorme. O ambiente é de tristeza, a geladeira é aberta e uma pequena nuvem, iluminada por dentro, sai pela porta. Alguns amigos estão no pequeno gabinete de trabalho. Os livros que ela tanto amou estão adormecidos nas estantes, calados, circunspectos. Todos estão assim mas Paula e Cícero não conseguem dobrar a dor e engolir com as lágrimas, os sentimentos engasgados. Parecem os mais afetados e destroçados pelo cena da retirada das agulhas.

Paula tem quatro anos, Cícero onze. Crianças não combinam com dor. A vida, ah, a vida quando se trata de dizer que “O difícil numa paixão é não exagerar”. O assunto diz respeito ao cuidado de fechar a porta e dizer adeus. É que não é tão fácil assim sair e levar as crianças até um parque, para depois lembrá-las que as pessoas que amamos estão lá no alto, nas nuvens, no céu.

sábado, 26 de dezembro de 2009

FIB, felicidade bruta


Joseph Stiglitz, Prêmio Nobel de Economia de 2001 inventou o FIB - mecanismo pelo qual pode ser medida a felicidade interna bruta. As palavras, sempre elas, escondem ou revelam os sentidos misteriosos, criando outros ainda mais misteriosos. Quando se diz "podre de rico", esse 'podre' aí não é coisa pouca não. Diz que o cara é insuportavelmente rico.

Ao espírito cínico não escapa a ironia da palavra 'podre' e de toda sua riqueza olfativa.Confesso que não faço idéia do que seja isso. Não conheço ninguém "podre de rico", conheço 'podres' de outros tipos, mas não de ricos.

...........


Aliás, isso aqui não é um museu de cera. Essas linhas são mero pretexto para mostrar a imagem de Bianca, brincando no balanço. Bianca é de lata e pano, de cores alegres e vive brincando com magias.

Tais palavras foram ditas sob o efeito de um café forte, acompanhado de um relaxante muscular. Essas coisas que tomamos para aliviar a dor quando a felicidade é bruta e pode ser medida pelo homo economicus.

A placa de metal envernizada desaparece sob a ação mortal do ferrugem. O FIB, totalmente bruta e feliz, não dá sinais de enfraquecimento. Arbeit macht frei, (O trabalho liberta) como eles diziam em Auschwitz, é o engodo que dá fôlego ao homem "podre de rico".

Joseph Stiglitz já fez as suas contas.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Navidad y vino


Es el vino rojo, sangre azul con deseos de coca-cola e Ritalina. Una Navidad de sueños y borboletas azules bailando pelos corredores da casa Laura, pelos corações da america latina y por las flores en las cabezas de las mujeres.

Bebo esse vinho em memória de ti, dos sonhos vindouros que sonho contigo. Bebo una copa para celebrar tu presencia viva em mi cuerpo que busca el tuyo. Tudo es Navidad, tudo es sueño e deseo.

Essas palabras derramadas banham minha alma seca, minha vida que sonha com uma Groelândia derretida sobre o calor do meu corpo marcado pelo sol da caatinga, pelo ar seco do planalto. Uma flor do cerrado, do infinito horizonte que parece belo, que parece minas, que parecem Corisco e Lampião vestidos de papai noel, num shopping qualquer dessa interminável metrópole.

Ah, sim... feliz nochebuena!

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Aletéia? Delete!


A imagem é essa saudade sem fim. Os teus lindos lábios, a casa Laura e todos essas palavras/imagens sobre o palco da memória. Marçal Aquino e Vladimir Nabokov esperando la caja abierta, con sus fosforitos carmines, prender el fuego de la pasión. No sé cuales son las palabras exactas pero todas ellas son para ti.

Aletéia, essa busca do oculto que se revela en tu boca roja, en mis sueños azules, en los recuerdos de aquellos dias de nuestra vida.

No delete. Onde você estiver... no olvides las mañanas de nuestras vidas.

domingo, 20 de dezembro de 2009

Amora e manhã


Amor a

A M O R A

Amor de mais, de menos, sem demora.

Amor ao aroma

Da flor do teu amor, agora.

Há Roma e Romã.

Delícias verbais, frutas da estação.

Aroma do cajú e do amanhã.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Siete puñales en el corazón de América


É com esse título dramático que Fidel Castro mantém intactos seu discurso e sua vida, dedicados a livrar o coração da América Latina. A lucidez dos seus textos será objeto de intermináveis interpretações ao longo da história. Eles estão entre os clássicos que formulam, com clareza e devoção, o amor e a ferrenha dedicação a salvar o apunhalado coração latino-americano.

Sete punhais e pragas depois, A Utopia Brasileira, de Antonio Risério volta a mostrar a sutileza com que os punhais atravessam a carne da cultura brasileira. O fundamentalismo religioso, político ou cultural; o materialismo desenfreado do consumismo imoral; as paranóias sexuais; o uso da violência, todos elementos que caracterizam os impérios e exercem diabólico fascínio.

O coração da América é uma solidão perseguindo o sonho de uma alegria sem fim.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009


Conheço una muñequita que se ha hecho en la Conchinchina. Ela quer tomar chá. Un té para dos. Sus deseos son mis sueños, mis imágenes.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Esse tipo de coisas


Veja você, caro leitor, o cara está apaixonado! Não faz nada que não seja falar do seu amor. Em suas palavras não pode ser encontrada uma sequer dedicada às questões que importam ao mundo. Nada sobre a liberação da maconha, nem sobre o dinheiro encontrado nas meias e nas cuecas dos corruptos, nenhuma palavra sobre a importantíssima reforma política e a reforma do estado ou sobre os bancos estatais. Não, nada disso. O pobre só consegue ficar alienado em sua mundinho pequeno burguês, enclasurado numa fantasia privada, criada provavelmente no início da modernidade com o tal do amor romântico. É impressionante o total afastamento das coisas do mundo. Os sérios problemas provocados pelas crises dos mercados, o terrorismo ameaçando permanentemente a paz, as discussões sobre israelenses e palestinos que nunca chegam a lugar nenhum, tudo isso é absolutamente alheio ao apaixonado que só vê estrelas e galáxias espalhadas pelo corpo da mulher que o enternece. A tipos assim só lhes interessa o gozo egoísta do corpo, uma espécie de retrocesso, regressão fantasiosa ao útero da mãe. É um filho da mãe!

A situação é explícita, veja só, caro leitor.

“Alimenta minha alma com esse pão sem manteiga, com esses doces infernais. Põe esse manjar na minha boca e fortalece meu desejo. Acende um baseado, abre a janela e me dá um beijo.

Toma banho comigo nesse rio, nessa água verde com areia branca no fundo. Deixa eu limpar tua boca, úmida e gordurosa. Senta aqui e bebe esse suco de maracujá, está bom de doce. Deixa eu ficar no meio das tuas pernas enquanto dobro a ponta do lençol. Não temos pressa, as artes estarão esperando por nós nos museus. Sim, gosto de morder teu joelho, as dobras da tua perna e os tornozelos. Essa dobras todas eu gosto de morder e sentir o sabor. Alimenta minha alma, minhas ilusões e fantasias. Deixa que eu viaje por esse mundos desconhecidos, que guardas com tanto segredo.

Esquece o Papa, deixa ele canonizar quem quiser. O mundo precisa de santos e beatos. Vem para perto, deixa eu morder tuas orelhas. Não importa o PIB do segundo semestre, nem o resultado incerto das pesquisas. É melhor acreditar que as coisas vão melhorar. Chega disso, vem aqui que quero lamber tuas gengivas, tua lingua cheia de geléia de jabuticaba. Vamos desligar esse abajú, essa cor é esquisita. Prefiro a luz natural iluminando teus cabelos perfumados, soltos, macios. Deixa tua mão comigo para que eu possa olhar com cuidado tuas unhas pintadas combinando com a harmonia dos teus pelos.

Vem, abre mais as pernas. Deixa eu chegar mais próximo, cada vez mais dentro, até o infinito. Eu sei, você já me disse e eu fico sempre feliz em lembrar isso. Adoro seu sorriso, o jeito enigmático do seu olhar”.

É caso para internamento, caro leitor! Nossa época não comporta esse tipo de coisas.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Teu corpo


O teu corpo meu repouso, loucura e esquecimento.
Remédio e alimento, o teu corpo, minha sombra e aquecimento.

Páginas dobradas, inteiramente abertas, claras, obscuras dobras
Onde leio teu ser e lembro que só existo porque existes.

Aforisma, frase curta, direta, flor no meio do jardim,
Fonte pura de águas azuis, águas sem fim, úmidas paragens da flor.

Sob o céu intenso, radiação solar incandescente, teu corpo ilumina.
Todo ele uma galáxia de anunciações.

Tua boca, os buracos da tua cabeça, teus poros abertos,
transbordando aromas de misturas e encantamento.
Tuas pernas! Ah, tuas pernas!

O alimento dos meus sonhos,
essa carne do teu corpo feito de luz.

Teu silêncio


.
..
...
....
.....
........
.....
....
...
..
.

O silêncio oculta latente o desejo
O medo guarda o silêncio na palavra

A rainha não veste suas roupas
a maquiagem é insuficiente para esconder
o silêncio oculto na palavra

A roupa da princesa é azul. Não esconde nada.
Só as palavras ocultam e guardam
Esse silêncio que mata.

.....
.......
.........
...........

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Esfeéricas



O manto verde azul vem vindo.
Virá amanhã a chuva, virá.
A noite é negra, com estrelas.
A lua é crescente.

A vida vem na lua.
As estrelas estão presentes.
A rua vai subindo. É no alto.
É lua nascente.

As palavras mostram a imensa dificuldade de dizer algo. Quando li o "poema" acima e fui consultado sobre o que "achava" dele, fiquei sem saber como ser delicado com o pobre moço que enviou seu "poema". Claro que o poeta concorda que tal "poema" é um exercício de infâmia, que isso é uma injúria e uma brincadeira de mau gosto. Escrever coisas assim demonstra um primarismo absoluto e uma degeneração expressiva digna da mais baixa literatura.

Tal infâmia pode ser comparada às cenas dos jornais diários nos quais personagens da vida pública, funcionários, juízes, delegados, governadores são pegos fazendo coisas feias. Os termos usados para descrever tais situações devem ter a mesma qualidade poética de luas nascentes e estrelas presentes.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

A_posta


Pensei postar o James Joyce, pensei a_postar na sorte.

Vou pensando no jogo e na sorte da palavra. Peço que ela venha, mas tudo é incerto. O post é uma a_posta à própria sorte, ao próprio azar.

"Ventos de maio, em dança mar afora,
Dançando lá numa ciranda em glória
De sulco em sulco a espuma esvoaçando
Ao alto, até tornar-se uma guirlanda
De arcos prateados que atravessam o ar-
Não viram meu amor nalgum lugar?
Malandanca, malandanca
Ah ventos de maio em dança!
Amor eh triste se amor estah a distância"(james joyce)


A palavra é triste, assim como se escreve a dor. O amor é triste na distância. Na tristeza o amor permanece, continua amando.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Andanças


O matemático, pressentindo o trágico fim, fez os cálculos mais lindos, mais loucos e verdadeiros. Com eles foi possível compreender a natureza das mudanças. Quando mudamos para deixar tudo inalterado e quando mudamos para nada mudar. Alterar é desassossegar-se no rumo da alteridade, o caminho que abre a porta para o outro, para além da periferia de mim mesmo. A matemática não sabe que não sei matemática. Ela brinca com seus cálculos exatos e deixa que a luz do dia desapareça no início da noite.

Mudanças nas andanças e nos passos da dança. No cálculo impreciso da vida, nas trocas que fazemos, nos beijos que sonhamos enquanto embalamos nossos sonhos em incertas esperanças.

Vem o natal, vem o carnaval e o ano vai começar outra vez. Uma vez mais, e sempre mais, só importa esse desejo de voltar ao teu corpo e sentir tua presença. O dasein esquecido e guardado na lembrança.