sábado, 27 de junho de 2009

Reverência


Reverência é um tratamento respeitoso. Feito àqueles que são admiradas por suas vidas, atitudes e palavras. Existem diversos tipos de reverências. A que, aos meus olhos, mais destaca sua finalidade é a reverência no tratamento.

Lendo a introdução ao seminário feito por Castoriadis, sobre O Político de Platão, vi uma dessas reverências que aparece de uma forma muito doce. Ele diz assim: "uma primeira elaboração da transcrição bruta foi feita por Pascal Vernay com a colaboração de três de seus amigos, em 1992, e submetida àquele que chamávamos de Corneille".

É esse "a quem chamávamos de Corneille", que desperta, é o que sinto, o sentimento de tão doce e carinhosa reverência à existência de alguém. Muitos outras expressões de reverências traduzem a grandeza desse sentimento de gratidão à vida, por alguns abençoados.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Esferas


As esferas giram imutáveis sobre o tempo. É o fim de uma tarde e uma criança espera sua bola de sabão flutuar ao infinito. É a singularidade do limite que vivemos na solidão da existência. As esferas flutuam girando sobre as faces lisas e espelhadas da noite

"A esta clase de límite pertenece, por ejemplo, la muerte que cada uno ha de morir, la culpa que cada uno ha de asumir, el conjunto de la organización personal de la vida en la que cada uno debe realizar-se como aquel que sólo él es en su unicidade". H-GG

Nessa hora de silêncio as esferas brilham sem fim no verde da avenca. É a hora de um tempo sem nenhum desejo de novidade, sem nenhuma angústia por novidades. É a hora das esferas flutuarem num movimento sem fim, de calma, da mais pura calma.

A bolha de sabão é uma esfera de pura luz e ilusão. Um eterno instante de infinito maravilhamento, uma borboleta azul no caminho de Inhotim, de uma trilha borboleta, sorridente e feita de papel crepom. Uma coleção de Divinos de cores suaves e permanentes.

A avenca é um verde que te quero verde. Um palavra verde que diz azul, que diz borboleta e morte. Não são truques nem trocas de palavras. São apenas esferas flutuando as imagens dos abismos abertos para o homem.

São capítulos dentro de capítulos, como bonecas russas dentro de outros segredos e esperanças. O instantâneo acontecimento dobra a rua e parece familiar no início do inverno.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Mimosa pudica

Malícia



Reino: Plantae
Género: Mimosa
Espécie: Mimosa pudica

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Declarações


Eu te odeio e outras declarações de amor. E com esse espírito de contradição que a natureza ronda os sentimentos humanos. A hora agitada da manhã clama um momento de contemplação. Mas já é tarde nessa manhã com tantas coisas a fazer. As idéias parecem deslizar num tobogã de ilusões e a necessidade das declarações torna-se imperativa. A tela limpa espera pacientemente o caminhante falar das dobras que escondem a sua curiosidade com o canto do pássaro.

O amor, esse mistério, é o pathos por ti que habita minh'alma. O ódio é lado obscuro que ilumina a beleza resplandecente da tua beleza. Vou cantar o encanto dessa osbcuridade que acontece nos permanentes fragmentos das lembranças dos dias em que estavas sorrindo por nada.

sábado, 13 de junho de 2009

Etologia



O primeiro raio de sol ilumina a varanda e a vida retoma sua agitação habitual. A fome, a sede, os reclames do corpo. Lembro que ontem uma jovem estudande de Biologia abriu seu livro e foi deslizando o olhar sobre as figuras dos animais. O livro era sobre Etologia. Ensinou-me que alguns bichos são mais difíceis de educar e que outros não aprendem nunca. A luz e o calor do sol ficam mais intensos e um desses raios ilumina discretamente um detalhe escondido na varanda.

"Deus está no particular". Esse é o lema que orienta o olhar que perscruta. O ar dessa varanda traz de volta a imagem do pequeno vaso com flores iluminado pela luz pura da manhã. Olhar horas a fio o entorno imediato, em calma contemplação dos detalhes, permite ver e pensar o outro lado da luz. Uma flor, uma insignificante passagem da brisa, o canto distante do pássaro e todo esse mundo bucólico ressurge na agitação do mundo complexo que está logo alí, na volta da curva.

Na procura do beijo, a procura da vida.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

O dia de hoje



O dia de hoje lembrou aqueles dias de pouca luz e muita alegria. Logo pela manhã a chuva inavadiu as ruas e o trânsito ficou insuportável. Mas ainda assim a luz amarelada, que brilhou no fundo do Café das Horas, brilhou com mais beleza que nos outros dias. As filas ficaram unsuportáveis, tudo parecia mais lento e iria atrasar ainda mais. Qualquer idéia que não fosse prática e razoável caberia num dia daqueles. Toda a poesia, naquela estranha luz acinzentada, parecia escoar na água do guarda-chuva.

O café ficou mais quente e saboroso e as incertezas sobre os resultados das incertezas eram balanços finais de notícias incontornáveis. A vida seguiu o seu rumo de alegrias e incertezas.

O mar da minha varanda ficou vermelho essa noite. Era o anúncio desse estranho dia, de pouca luz e muita alegria. Logo pela manhã a água desceu pelo guarda-chuva e a luz amarela brilhou com mais calor no aroma do café das horas, onde fiquei esperando vc sair do psicanalista.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

A insustentável leveza


As primeiras horas da manhã deslizam as delicadas gotas sobre as folhas da grama. As primeiras horas ainda não são a realidade do dia. Esta só aparece depois que o sol anuncia sua luz soberba e total.

Penso nas palavras dos poetas e que poetas são palavras dizendo o mundo, além da realidade da luz soberba do sol. Penso na suave cor que brilha no sorriso da criança e no olho do lagarto azul.

A esfera rola pela escada e cai na piscina de mercúrio. É uma escultura no pátio de um museu em Barcelona. Uma luz suave e pertubadora invade a alma e o corpo. O tempo é de luz e enigmas coloridos, serpentes feitas de espantos e esperas.

O silêncio é oportuno. A argumento é insano. O desejo é sempre.

domingo, 7 de junho de 2009

Palavras e Coisas


Aconteceu um dia a palavra não estar mais presa à coisa. Tornou-se livre e começou a significar o que bem entendesse. Agora poderia ser usada para designar aquilo que o desejo pudesse alcançar. A palavra abundância, por exemplo, passou a designar a mais absoluta falta de qualquer cois. E também começaram a faltar letras nas palvras. Mas ainda assim, segundo os linguistas e estudiosos da onomástica, o fenômeno não era recente e qualquer alteração grave de sentido provocado pelas mudanças, deveria ser visto com cautela.

Os sentidos das palavras lentamente foram estabilizando e só algumas poucas ainda causavam problemas. Aquelas de uso imediato como mesas, automóveis, bolsa de valores, alfinetes, mundo corporativo e todas essas coisas do mundo real voltaram aos seus sentidos originais.

As palavras são palavras e as coisas são outras coisas diferentes das palavras.
Existem as palavras, as coisas e a mentira. Esta última é quem permite dizer que nem sempre as palavras são as coisas.

As coisas são mais importantes que as palavras. Os argumentos mais poderosos são os construidos com coisas. O carro, o jardim, os jantares e as viagens. A mesa posta e a neve deslizando pelo vidro que reflete chamas de felicidade de uma provável lareira.

As palavras são piegas relvas de desejos e ventos uivantes e lentos ou dourados de um entardecer com luz de velas e vinho e uma revista bem ilustrada com entrevista fundamental de filósofo contemporâneo mas pouco conhecido. uma troca de olhar em cada nova esquina da cidade que se revela autônoma aos meus desejos e aos desejos do leitor que deve procurar um capuccino dourado e dormir.

Está bem, mas o que quer dizer tudo isso? Esse jorro de palavras que aparentemente é só um jorro de absoluto non sense?

No princípio era o verbo, mas hoje, onde estão as coisas, as únicas que podem nos salvar?

sábado, 6 de junho de 2009

A propósito de desejos


A manhã desperta a relva e o desejo. Gotas cristalinas deslizam sobre a pele e rompem as barreiras de todas as impossibilidades. Tua boca é um abismo escancarado que abarca minha loucura. Meu corpo é o escravo que teu perfume lança ao vento.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Imagens a propósito de palavras


Desejos a propósito de imagens e de outras palavras. Uma palavra obscena desenhada na curva do rio, nas pernas entre fechadas e abertas para o desconhecido desejo.

Esquecer


A flor, a cor e o deslizar do esquecimento. Não há flor nem cor sobre a mesa. Não há mesa nem tábua que possa apoiar tão pequenos objetos da memória. Não é que morra de amor, nem de lembranças e nem de esquecimentos.

Acabou a feira das novidades e das coisas interessantes. Acabaram-se as palavras inteligentes e as presenças últimas do espírito. Não guardo de ti nem mesmo uma ilusão. Não há para lembrar, para guardar, para esconder. Tudo ficou perdido naquela caixa preta, abandonada no oceano dos esquecimentos.

E agora, que tudo parece novo outra vez, nos olhares e nas alegrias, velhas descobertas coloridas das eternas novidades e o mesmo frenesi de enganos e cores frias estampadas em série.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Outras imagens

Imagens a propósito de imagens


Uma busca, efeitos, outras distorções, alguns esquecimentos e, instantes depois, magicamente surge a imagem. A busca incessante por algo que está do outro lado da fronteira. Atrás da geladeira há um misterioso mundo a ser descoberto e, bem próximo a ela, uma parede com fundo falso leva a terras novas, com novas línguas e novos mercados e ruas, outros cinemas e outros amores. É frio lá fora e dentro tudo é sereno e seguro. O caminhante olha e continua procurando a imagem que corresponde a esse mistério cujo mistério é que não há mistério. É apenas a geladeira, uma busca, alguns efeitos e outros esquecimentos.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Imagens


A quase totalidade das imagens que podem ser vistas aqui tem autoria certa. Outras tem origens diversas. Fui lembrado que deveria informar mais sobre as imagens. Quando foram produzidas e as técnicas envolvidas. Tentaria fazer isso.

A imagem acima foi realizada nessa madrugada do primeiro dia do mês de junho de 2009. Ela resulta de superposições da memória, de imagens feitas em outros tempos e dos mais recentes desejos de voltar a ver a cor das flores na primavera, pelas ruas de São Paulo.

Cidades são enigmas da alma. São Paulo é o shopping do Brasil onde posso encontrar os amigos. Mas que maldade, mas que saudade. Tom Zé Maracatu Atômico nas viradas culturais ensandecidas e geladas. Lembranças são enigmas da alma.

Finge tão completamente


O poeta diz que o poeta finge tão poeticamente que finge até o fingimento. As imagens do pintor não fingem, nem mentem menos completamente, pois a cor tinge sua dor tão coloridamente que chega a sonhar com uma cor que só ele sente.

Sem os sonhos não posso viver. Sem a poesia, e seus espelhos de ilusões, as máscaras não expressam mais que os rostos na multidão. Quero uma vinte e cinco de março lotada de desejos sem fim e de presentes baratos, toalhas e decorações juninas para os folguedos de um lugar que vivi em sonhos. Aprendi que minha alma é o que a memória guarda dos dias da tua chegada logo pela manhã na casa das Perdizes Ilusões. Eram nas asas da TAM e da GOL que os sonhos e os desejos sobrevoavam as montanhas de ferro e do alto era possível avistar os mares de uma certa Bahia.

Sinto as incertezas do teu silêncio pavão misterioso invadindo o vermelho da ilusão. Metafóricas e diretas palavras de cores e tingimentos naquelas lembranças da vinte e cinco de março em pleno setembro de primaveras em flor.