sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Bebe

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

A flor que és




A flor que és, não a que dás, eu quero.
Porque me negas o que te não peço.
Tempo há para negares
Depois de teres dado.
Flor, sê-me flor!

Se te colher avaro
A mão da infausta esfinge, tu perere
Sombra errarás absurda,
Buscando o que não deste.


Ricardo Reis

Aqui





Ao contrário de Eduardo Suplicy ( esse senador da República Brasileira ) que tornou pública sua dor, quando foi abandonado por sua mulher Marta, esse blog não é uma vitrine de sentimentos pessoais. Aqui não estão expostos fragmentos de dores ou quaisquer outros tipos de esperanças. O único propósito, ainda assim bastante vago, é permitir um exercício da palavra num palco aberto e absurdo. Não é coerente nem rigoroso, não tem compromissos políticos, religiosos, culturais, artísticos ou qualquer outro que possa ser referido. Mas, eventualmente, pode ser tudo isso.

Comentários, idéias, ondas, vagas, divagações, ilações, inferências, digressões e outras formas que expressam "ausência de coerência interna" são frequentes nesse exercício. É possível pensar coisas tão díspares como a beleza delicada da borboleta que pousa na flor que a criança leva na mão, quanto as implicações sobre a identidade, na perspectiva de uma abordagem fenomenológica da lembrança.

Paul Ricouer, Edward Casey, Supla, Luis Carlos Petry, artistas transgênicos, abusos mentais, Octavio Paz, Philip Roth, Leopoldo Lugones, o cú do mundo, Ilhéus, Itacaré, Miguel Cordeiro, Joyce Pascowitch, o restaurante do MAM perto da OCA, O Parraxaxá, a Rodrigo de Freitas, a terceira ponte, os parques de palermo, o café no Ateneo y la plaza mayor en Madrid. Places, sites, lugaridades, espacios de mistérios e recuerdos.

Todas essas cosas que nuestras cabezas inventan para olvidar y buscar aliento en la vida. Imagens de jabuticabas azuladas e brilhantes refletindo as ilustrações deslumbrantes dos livros infantis.

Tranpas del decir.

Mater


Nem mesmo o céu
, nem as estrelas, nem mesmo o mar
 e o infinito,
 não é maior
 nem mais bonito... (Roberto Carlos)

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Terra



Que a força mãe dê coragem
Prá gente te dar carinho
Durante toda a viagem
Que realizas do nada
Através do qual carregas
O nome da tua carne...


(Caetano Veloso)

Pai


É para ti, meu pai, que minha memória procura lembranças. Tua mão e esperança guardam meu coração. O meu amor desesperado e aflito de medo. Da bala, do tiro atravessando silenciosamente a porta frágil e absurda.

São nessas idéias vagas e nesses encontros inesperados que vejo, na memória, um lampejo de inútil esperança.

Os teus olhos estão em mim.

Anamnese


O vocábulo infamante do engano. Pathos puro. Memória, lembrança, recordação.

Campos azulados compõem a paisagem. Cores compostas em pastas azuis transportam linhas sem fim.

Com sua boca me honra, mas tem afastado para longe de mim o seu coração... Isaías (29, 13)

17:01 PM


17:01 PM

A morte cerebral de Beatrice Tereza Oliank, 15, foi confirmada ontem, a família autorizou a doação dos orgãos no final da manhã de hoje.

Isolado dos outros, ele não chorou, não dormiu, não comeu nem bebeu.
Apenas dizia: "Quero Beatrice. Eu amo a Beatrice. Ela é tudo em minha vida".


17:06 PM

Ela era silenciosa, discreta, não miava,

Fui vê-la na clínica e me dilacerou o coração ver aquela coisinha tão pequena, com uma patinha raspada para colocar o cateter, e me olhando com seus grandes olhos amarelos, como se perguntasse "por que estão fazendo isso comigo?"


17:18 PM

………


17:20 PM

Y será como el que tiene hambre y sueña, y parece que come, mas cuando despierta, su alma está vacia… Isaías (29, 8).

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

10:17 AM


10:18 AM
Pensava em dizer e, talvez diga, que algumas manhãs eu choro, que em outras leio jornais e choro e que, ainda em outras, sou contemplado pela misericórdia da vida. Hoje é uma dessas manhãs.

Dizer chorar, evidentemente não quer dizer nada se não estiver acompanhado do sentimento correspondente. Chora-se de muitas coisas.

10:20 AM
Para mim, cada vez mais, a Bíblia, é pura poesia e fonte de inspiração. Aprendo sempre com aqueles judeus apaixonados que admiravam os gregos. Embora continue cético, cínico, agnóstico e apaixonado.

10:36 AM
Entre a espontaneidade do lembrar e o trabalho de lembrar, como um desejo de compreender o que passou, há uma investigação complexa. E tudo isso está intimamente ligado a uma teoria da imagem que interroga incessantemente o mistério da presença do passado, na imagem. A imagem no lugar do que já nao é, do que um dia foi.

10:38 AM
O tempo somos nós. E nós somos a narrativa do que somos. A minha memória é espontânea, vem em cores, alucinada e massacrante, com detalhes iluminados e brilhantes.

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Geléia geral, Geléia real


O fogo é debelado numa reserva florestal no interior de Minas Gerais mas, na Califórnia o governador já decretou estado de emergência. O fogo devastou uma área de mais de 5000 hectares.

As notícias vêm assim, em flocos, em glocos. O glocal geral, uma geléia geral, uma geléia real.

Frankfurt se rende a Paulo Coelho. O mundo se rende a Paulo Coelho, o grande mestre na arte de não dizer nada para todos. Uma tarefa para poucos. Tão poucos quantos os que podem ouvir Ná Ozetti derramar lamentos para uma platéia
ávida por aplaudir a lembrança da declaração universal dos direitos humanos. Sempre achei estranho homenagens aos mortos, sobretudo quando batem palmas nos enterros.

Líder direitista austríaco morre em batida de carro. Jörg Haider, líder austríaco, morreu quando se dirigia para o sítio da sua família, onde estava sendo comemorando o aniversário de sua mãe. Haider tinha 58 anos e a sua mãe completou os noventa.

As flores, a poesia, a perpétua luz dourada impressos nas páginas sépias recendem a tédio, a naftalina.

sábado, 11 de outubro de 2008

Natura


Firme e suave é a delicadeza do equilíbrio.

Os sentidos deslizam na virtude da cor.

Textura forte em
terciopelo verde.

expressão perfeita de forma e beleza,
imagem de puro esplendor.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Essas coca-colas



Um mundo compactado, um código com intermináveis senhas, lembranças criptografadas.

Uma lagoa e uma casa de fazenda iluminada, seca e fria durante a noite. Café e frutas. Água e terra. Lama e brincadeiras. Flores, sonhos e crianças, e saudades de saladas com coca-cola.

O mundo, muitas vezes, é uma coca-cola com saudades. Dentro disso, que para alguns nem bebida é, existe um gás. Há nele um efeito mágico, que faz o conteúdo negro lançar minuscúlas micro esferas cheias de luz.

Essas coisinhas, de existência tão curta, fazem vir de novo à vida, pela lembrança, toda a magia que a ilusão é capaz de fazer brilhar.

Uma salada com muito azeite, sal e limão, e pão.
Uma saudade vermelha e branca, com queijo brie.

Colores y Gramáticas


Tengo miedo de ciertas cosas.
De palabras elétricas, mexicanas, nordestinamente baianas.

Tengo ganas de ti.
De tu olor, color y toque gramatical.

Tengo celos de ciertas cosas.

Uma taça de chá quente,
O roçar do olho sobre a página,
A distância entre os lábios.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Poema Visual


Acordo e leio os jornais. Visito rapidamente a caixa de mensagens e respondo logo às urgências do trabalho. Tenho que preparar uma aula. Os livros estão selecionados sobre a mesa há algum tempo. O tema a ser apresentado requer uma reunião inédita de correntes do pensamento, muitas delas contraditórias. Os diálogos são, na maioria das vezes, ab_surdos.

A tarefa matinal tem início depois que a memória se recolhe.

Será a impossibilidade da linguagem que faz nascer o poeta? Lendo Octavio Paz, vivo, sempre mais uma vez, essa experiência de espanto e assombro diante do modo clássico, suavemente humano, grandiosamente sublime, como as palavras são capazes de elevar o espírito ao alto, lá de onde se vê a imensidão do abismo.

A luz invade a sala. Há luz. As palavras irradiam uma presença enigmática. O assunto da aula é o poema visual.

Por que poesia?

Desço as cortinas e procuro a suavidade, propícia à luz do pensar. O poema visual é o teu corpo. Na galáxia dos sonhos da minha esperança, vejo tua imagem impressa na indiferença do tempo.