quinta-feira, 28 de maio de 2009

Mnemosine


O templo das musas era o Museion, lugar das artes e das ciências. Musas, museus e outras memórias estão 'editadas' na imagem de Hermes, que ilustra a tela do meu celular. O tempo, a história e a tradição criptografados em bancos de dados esquecidos em inimagináveis, e definitavamente intraduzíveis, códigos que possam circular no Twitter.

Mergulho nos labirintos das new media perguntando pelo essencial que ficou do passado filosófico. Nessa filosofia pretérita que provocava Ortega y Gasset perguntar pelo que virá no futuro do homem.

Um olhar para trás nos entrelaça e orienta o olhar para frente. Ortega diz "o passado é uma catapulta que nos lança pelos espaços ainda vazios do futuro por vir". São, portanto, dois olhares que se cruzam no jardim dos caminhos que se bifurcam. Jano olhando o passado dezembro e o futuro fevereiro.

Viver para lembrar, para sonhar e narrar. Recolhendo fragmentos de sonhos vindouros em arcas escondidas nas velhas casas das fazendas e nos arquivos da cidade. E também naquelas janelas de Ouro Preto, nos escondidos escaninhos da Irmandade dos Pretos Velhos da Bahia e em todo sabor que embriaga a memória dessas lembranças.

Essas reflexões também poderiam ser chamadas de aprendizados de elegância. Seguindo a lição do Ortega: "Elegante é o homem que nem faz nem diz qualquer coisa, já que faz o que é preciso fazer e diz o que é preciso dizer".

E antes mesmo dos "atos de fala", de Austin e Searle, já se sabia que "O dizer é uma espécie de fazer". Nos textos dobrados e escondidos da filosofia encontramos, com desconcertante atualidade, o dito que bem pode caber numa mensagem do Twitter.

"O Senhor, a quem oráculo que existe em Delfos pertence, nem declara nem oculta porquanto sugere". Heráclito, Fragmento 93.

domingo, 24 de maio de 2009

Preta


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Preta é a minha cachorra biológica. Isso quer dizer que ela não é um animal modificado geneticamente. Não é um transgênico como Dolly, a ovelha, ou Bunny, a coelhinha fluorescente de Eduardo Kac. É um animal dócil, de temperamento tranquilo e, ao mesmo tempo, um cão de guarda valente e destemido.

As idéias de Kac sobre os animais transgênicos, e como devemos nos relacionar com eles, sempre foram muito curiosas e extravagantes para mim. Escrevi um texto sobre isso e agora, que tenho a oportunidade de compartilhar parte do meu tempo com um animal, é ainda mais enigmático pensar sobre esses temas.

Preta é mãe de oito cachorinhos. Mãe exemplar, posso comprovar.

sábado, 23 de maio de 2009

Afecções da Alma


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O futuro a Deus pertence. O passado a quem pertencerá?

O passado, afirmam alguns, pertence a Memória. São afecções da alma a lembrança, a reminiscência e outros modos de imaginar o tempo que passou e as coisas que não são mais, que nunca mais voltarão a ser como foram. O passado é a história de uma vida que percorreu os caminhos oferecidos pelo destino e pela ousadia do sonho. Importa pensar na lembrança, importa pensar na história, no que ficou no tempo que passou? E como pode ser pensada essa afirmação de Martin Heidegger de que “todo fazer poético surge do pensar da lembrança”?

Existem as primeiras e as segundas intenções, os terceiros fragmentos e a Segunda consideração intempestiva da utilidade e desvantagem da história para a vida, de Nietzsche. Existem lembranças de um olhar doce e penetrante e também uma Rememoração, repetição, prelaboração e um Luto e Melancolia de Freud. Existem esses textos do passado. A memória coletiva congelada e flutuando nas palavras de Heráclito, descendo os rios do tempo que vão, em vão, sempre desaguar no ar.

Aqui e agora vive o sonho de, quem sabe, viver mais um sonho. Cartola canta no passado um desejo que nasce no futuro de uma ilusão. Freud volta à cena com esse Futuro de uma ilusão. Há a ilusão de um futuro que é mágico, uma ousadia da alma buscando, sempre mais uma vez, sonhar.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Crátilo

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Inflamadas, aos berros, silenciosamente perversas, candidamente belas.

Malditos palavrões de merda, esperadas e esquecidas todas essas porras e caralhos e esses duros e insatisfatórios vexames vernaculares. O vernáculo é o rabo da puta que pariu santos e beatos pais devotos e mães dedicadas, putas, belas, apenas palavras ressoando no Crátilo, nas sintaxes combinatórias, nos despachos ministeriais e nos mistérios das oferendas a Oxalá que tudo fique aberto para o desejo de abrir e enfiar um envelope na fresta da janela que se abre para o jardim.

Após pronuciar essas palavras, em maviosa voz, a pequena criança de apenas 10 anos, assoou o nariz e disse que se sentia levemente gripada. Uma mão carinhosa ofereceu-lhe um lenço branco e imaculado. A criança tomou o lenço e, com precisão cinematográfica, enxugou a furtiva lágrima que traia toda a pompa daquele estranho acontecimento.

Conto depois como foi - disse um terceiro.

Um silêncio tomou conta do recinto enquanto a criança recompunha seu estado de graça. O lenço, já não tão imaculado, apesar de sido usado por um santo, segundo se acreditava a respeito daquela criança, foi devolvido e depositado numa urna para ser levado a leilão em data a ser determinada.

Essas coisas acontecem – murmurou alguém.
A vida é assim mesmo, fazer o quê?

A criança sorriu e as pessoas começaram a sair da imensa sala. Uma revoada de borboletas azuis desfilou diante dos poucos que ainda restaram. Eram efeitos especiais, propósitos e desejos de fazer algo. Encontros, sorrisos, novos olhares para os mesmos ângulos, as mesmas insuficiências da alma.

Longe, lá do outro lado, na incerteza da noite, um lobo é o puro lamento. Ele é o caminhante que confia seu sono às árvores do caminho.

'O mistério é que não há mistério'. Não há caminho sem o teu olhar.

terça-feira, 19 de maio de 2009

Terceiras intenções


Após os segundos exercícios aparecem as terceiras intenções. Na verdade são as primeiras tentativas de um processo de contemplação marcado pela memória. O procedimento é realizado com a importação para o palco de algo que está na biblioteca. Os tais livros suspensos no ar, lembrados por Borges. Um tempo dissecado e visível ao toque da pele. Um tempo feito de calda de açucar, de melaços de lembranças e de café entornado nas cercanias de um chá verde.

Ah, que estranho esse sentimento de olhar para o passado! Esse mergulho numa imagem que só existe na imaginação e num desejo pretérito perfeito. Essas inflexões tramadas nas fechaduras das imensas portas dos imensos prédios do centro de São Paulo. Ruas frias, labirintos sem minotauros, sem links de navegação ou promessas de outras paisagens.

A terra prometida está cercada de muros, arames farpados e o conforto traduzido pelo calor de uma lareira abarrotada de vinhos. Secos, suaves, tintos rubros de desejos calculados, prometidos, respirando o tempo de um vindima escondida no paralelo 38.

E, no meio da noite, volto a ler mais uma passagem do Prometeu e Epimeteu de Carl Spitteler. A imagem que aparece é a da cachorra, animal de porte e elegância, caminhando através do jardim, atravessar a varanda para então, com ambas patas dianteiras apoiadas no parapeito da janela, ficar espiando para dentro com o pescoço esticado e orelhas curiosas.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Segundos exercícios


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Os dias e as horas passam. O pássaro flutua sobre a paisagem e o meu olhar mergulha no movimento absurdo da esperança. O pássaro torna a girar sobre o meu olhar inquieto que descansa, num detalhe guardado em algum lugar do passado. Filtros e cores e todos os efeitos para encobrir os defeitos da minha alma. Um espírito de flores seduzindo o vento, contemplando os espaços brancos e virgens de todos os sonhos que guardamos do outro lado da esperança.

Silêncio azul, vermelho, silêncio galáxia láctea e densa. Ainda procuro quieto uma cor, uma flor de maracujá que vai nascer na minha varanda. Uma flor que vai nascer no meu olhar, na câmara, no movimento pelas salas imensas, vazias, plenas de silêncio e cor.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Ex_perimentos


O movimento da camara é um exercício do pensamento. A imagem pensa, a camara voa nos detalhes da cor e do destino. O roteiro é uma reminiscência de algum lugar no passado, de alguma esperança do futuro. Um texto indeterminado e sempre incompleto.

O olho procura um lugar para repousar e pensar. História composta de fragmentos e terracota, técnicas de gravuras metálicas, rumores de um e-mail que nunca chega, um eterno flutuar.

Onde andarás nessa tarde sem fim? Em que céu, em que estrelas te escondes?

No Facebook não te encontro, nem no olho do furacão. Onde andarás?

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Pescar


"Pescamos as palavras com redes feitas de palavras". Mas as redes que pescamos as imagens são imaginárias, visionárias, repletas de luz e cor. Recolhemos nossos sonhos em traçados de seda pura, de pergaminhos de ilusões e saudades que ultrapassam os horizontes das nossas longínquas esperanças.

Una luna flutua nas noites del Tigre, na foz do Mekong, nas ribanceiras do São Francisco. Tua imagem paira em suspenso sobre o reflexo dessas águas, desse impermanente rio de metáforas que corre nas minhas veias.

Palavras em cores nomeando imagens de redes, sem qualquer prudência ou recato. Turbilhão de ventos e rios carregados de doçura, de afeto, de flores e borboletas azuis. Um Inhotim de fantasias voláteis, de frutas maduras, de desejos rubros sem fim.

domingo, 3 de maio de 2009

Luna Cornea




Conta Jorge Luis Borges que uma certa vez os homens registraram, num livro, tudo o que existia. Todos os acontecimentos passados, todas as coisas existentes e todas aquelas que ainda iriam existir estavam contidas nesse objeto mágico.

Quando a obra ficou completa, e a palavra fim já tinha sido escrita na última página, é que se deram conta de que algo tinha sido esquecido. O esquecido, lembra Borges, é sempre o essencial. O filósofo Martin Heidegger diz que o esquecimento essencial é o esquecimento do ser.

Para Borges o que eles esqueceram de incluir, no livro de todas as coisas, foi a lua. A lua, essa pérola que flutua no mar da minha varanda. Essa luz que nasce da tua pele iluminando as estrelas do meu estranho destino.

Mas ainda podemos nos valer de Santo Agostinho dizendo: "ainda não esquecemos completamente o que, ao menos, nos lembramos de ter esquecido".