segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

O trem



Já li as profecias e recebi os velhos votos. Tudo será igual, tudo será diferente. Quando o sol raiar a minha alma procurá a paz ao teu lado. Cada dia será como o primeiro, cheio de incertezas. Mal nascerá o sol e a minha pergunta, mais uma vez, será: o que fazer para ganhar o teu amor?

O trem continuará desgovernado rumo ao abismo. Mas talvez ainda haja tempo para uma última bebida, um último cigarro e o mais longo dos beijos.

A Política, a Filosofia, A Ciência, a Arte... o que fazer com isso nesse momento? O fazer com isso numa árvore de Natal?

O trem leva o destino do homem. Sentado numa das suas poltronas, levemente adormecida, está a deusa Verdade. O trem leva os deuses para o abismo. O homem conduz o trem.

terça-feira, 23 de dezembro de 2008



Leio o blog de Miguel Cordeiro e sou informado que ele está na relação da revista Veja, que foi listado ao lado de tantos outros blogs. O que faz aqui, nessa lista, uma publicação primorosa da obra Arquivos Miguel Cordeiro - Palavra & Imagem? Sobre listas e relações dos cem mais em qualquer gênero já se disse muito. Cometem erros grosseiros. Parece um tipo de problema que os algorítimos do Google podem resolver.

A revista Veja é burra e grosseira. Marcelo Coelho, do Conselho Editorial da Folha de São Paulo, lembra essa burrice ao tempo em que pergunta: Será que a burrice nunca abandonará a revista "Veja"?

Eles bem que podiam ser menos preguiçosos, e burros, e dar ao blog de Miguel Cordeiro o destaque que ele merece.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Cavalo de corrida genial


Robert Musil, em O homem sem qualidades, relata a angústia do personagem que percorreu os mais árduos caminhos para alcançar o reconhecimento por sua genialidade. Ao fim de tão elevado esforço ele constata que um cavalo de corridas o antecipara e, primeiro que ele, é reconhecido como um cavalo de corridas genial.

Assim como a genialidade não é mais um atributo humano mas coisa de equinos, também o amor que Platão, no Banquete, ensina, e que o Cristo elegeu como princípio fundamental, não é mais nada que um mero jogo de palavras sem sentido.

Foi com esse título pomposo que os comerciantes, empresários, professores dos departamentos universitários das ditas Humanidades e outros profissionais que amam suas profissões, fizeram sua "confraternização" de fim de ano: A feijoada do amor.

Amor e feijoada parecem ter uma ligação visceral. Algo meio sarapatel com as devidas normas da ABNT devidamente corrigidas. Um currículo Lattes de trinta páginas de absoluta genialidade e amor.

Já estou no limbo, no purgatório. Por favor não rezem pela minha alma. Ela não tem nada de genial e muito menos tem apetite de feijoadas.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

O Jardim Japonês


Carpas, águas, brilhos, levezas azuis, unhas negras, delicadas.
Horas a fio reluzindo o raio do sol, da lua, da luz negra azulada.
Cabelos de fogo, olhar de corpo celeste, ar puro marinho.

Águas puras, cristalinas manhãs de luz.
Do alto da montanha um vento vem.
Vem o sopro do vento frio.
Da manhã, da tarde, da hora certa.

É só uma luz. É toda luz, toda a vida.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Job




Não há, de acordo com George Steiner, uma frase mais violenta na literatura teológica que a de Karl Barth:

"Dios pronuncia Su eterno No al mundo". Depois do Holocausto a Arte não faz mais sentido.

O que faz sentido senão a tua existência e a esperança do teu olhar?

Eu continuo ateu. Continuo obcecado e fascinado com a flor do maracujá. Do amor do novo testamento.

Café



O café tem sido o grande companheiro das madrugadas. Com ele vislumbro as primeiras luzes do dia e sinto seu aroma invadir os territórios ocultos do corpo. Compõe as forças para um novo começo, para as esperança de ver, mais uma vez, teu sorriso de esplendor. Não, não é obsessão, é pura fascinação.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Virose


Líquidos brotando de todas as partes do corpo. Dores iluminadas por lâmpadas brancas de luz fria. Toda a vida parece resumida a essa insignificância de um tubo de ensaio e de uma agulha rasgando a delicada pele. As lembranças desfilam perdidas e esquecidas em baús digitais de HDs enferrujados.

Aqui, na clínica, nesta pequena cela, sem nenhuma privacidade, somos todos iguais. Somos todos mortais, finitos, pequenos seres abandonados pela sorte.

Duas horas depois desse rápido susto, a vida retorna com toda a sua arrogância, sua vontade de ser feliz, de ousar os sonhos mais impossíveis.

Ah.... gracias a la vida, que me ha dado tanto!

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

7:30 pm


Estranha hora vagando entre sete e oito passos. Um tempo que não sei o que é. Uma intriga que jorra tempo, uma trama automáticamente posta no final do dia. A poesia atravessando o pão, o queijo e a saudade. Esgotados os trinta primeiros intervalos de outros intervalos ainda menores sem que eu mesmo pudesse me dar conta do tempo que passou.

No instante seguinte, a memória empacota e guarda, num lugar desconhecido, toda aquela vida que ficou no intervalo entre o pão e a saudade. Fluxos para um sem fim dos heraclitianos rios do Recife e de Itacaré. O eterno vir a ser do mesmo, outra hora depois. A trama do tempo, essa intriga, assunto de Aristóteles e de João Ubaldo Ribeiro. O tempo, esse terreiro de candomblé, é índigo blue. Não tem plural, mas é plural; uma ave de rapina que rouba de mim o tempo que preciso para te amar.

Por isso, a urgência. São 7:30 pm. Preciso dizer, encharcar com amor este instante. A palavra que acabo de escrever, o tempo que acabo de viver é o tempo da música das esferas e do canto suspenso no ar.