segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Copenhague


Li, mais uma vez, as palavras veementes de Fidel Castro. A luta contra os poderosos não poderia ter uma voz mais altiva que a desse herói latino americano.

Posso, graças a elas, ver do alto nas ruas, os nomes de Ortega y Gasset, Jorge Luis Borges e Leopoldo Lugones. É fabuloso ver, assim do alto, esses nomes cravados no mapa da cidade. Estou caminhando em volta do Jardim Botânico e as flores orientam o caminho. As palavras de Fidel são carregadas no vento. Elas evocam Calderón de La Barca e las orillas de los poemas de Neruda. João Cabral de Melo Neto e Celso Furtado sentados na praça de Xique Xique, esperando Lampião.

Na Terceira Margem do Rio eu vi meu pai. Vi Guimarães Rosa nas barrancas do São Fracisco indo para a Alemanha. Cegos, coriscos. Não vi mais nada, só ouvia as palavras claras de Fidel Castro abrindo nossos olhos para o mundo.

domingo, 27 de dezembro de 2009

Media-lunas


La imagem se sustenta en sí misma, sin que le sea necesario recurrir ni a la demonstración racional ni a la instancia de un poder sobrenatuaral: es la revelación de sí mmismo que el hombre se hace a sí mismo. Octavio Paz

Pelo sim, pelo não


O ser humano não costuma falhar, e nada faz com que uma pessoa se desinteresse mais rápido do que ter a certeza de que a outra está definitivamente conquistada. Danusa Leão, domingo, verão.

O certo é que o ser humano não costuma falhar no que diz respeito ao amor.

Mariana não tinha dúvida, o fim estava próximo. As agulhas foram retiradas e os drenos também. O seu diploma fora guardado numa caixa especial, primorosamente feita em madeira de lei. O pai, os filhos, os avós, o natal, a água mineral chegando, a cortina balançando, tudo era enigmático naquela sala. Uma palavra foi pronunciada suavemente.

A televisão está desligada, o notebook dorme. O ambiente é de tristeza, a geladeira é aberta e uma pequena nuvem, iluminada por dentro, sai pela porta. Alguns amigos estão no pequeno gabinete de trabalho. Os livros que ela tanto amou estão adormecidos nas estantes, calados, circunspectos. Todos estão assim mas Paula e Cícero não conseguem dobrar a dor e engolir com as lágrimas, os sentimentos engasgados. Parecem os mais afetados e destroçados pelo cena da retirada das agulhas.

Paula tem quatro anos, Cícero onze. Crianças não combinam com dor. A vida, ah, a vida quando se trata de dizer que “O difícil numa paixão é não exagerar”. O assunto diz respeito ao cuidado de fechar a porta e dizer adeus. É que não é tão fácil assim sair e levar as crianças até um parque, para depois lembrá-las que as pessoas que amamos estão lá no alto, nas nuvens, no céu.

sábado, 26 de dezembro de 2009

FIB, felicidade bruta


Joseph Stiglitz, Prêmio Nobel de Economia de 2001 inventou o FIB - mecanismo pelo qual pode ser medida a felicidade interna bruta. As palavras, sempre elas, escondem ou revelam os sentidos misteriosos, criando outros ainda mais misteriosos. Quando se diz "podre de rico", esse 'podre' aí não é coisa pouca não. Diz que o cara é insuportavelmente rico.

Ao espírito cínico não escapa a ironia da palavra 'podre' e de toda sua riqueza olfativa.Confesso que não faço idéia do que seja isso. Não conheço ninguém "podre de rico", conheço 'podres' de outros tipos, mas não de ricos.

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Aliás, isso aqui não é um museu de cera. Essas linhas são mero pretexto para mostrar a imagem de Bianca, brincando no balanço. Bianca é de lata e pano, de cores alegres e vive brincando com magias.

Tais palavras foram ditas sob o efeito de um café forte, acompanhado de um relaxante muscular. Essas coisas que tomamos para aliviar a dor quando a felicidade é bruta e pode ser medida pelo homo economicus.

A placa de metal envernizada desaparece sob a ação mortal do ferrugem. O FIB, totalmente bruta e feliz, não dá sinais de enfraquecimento. Arbeit macht frei, (O trabalho liberta) como eles diziam em Auschwitz, é o engodo que dá fôlego ao homem "podre de rico".

Joseph Stiglitz já fez as suas contas.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Navidad y vino


Es el vino rojo, sangre azul con deseos de coca-cola e Ritalina. Una Navidad de sueños y borboletas azules bailando pelos corredores da casa Laura, pelos corações da america latina y por las flores en las cabezas de las mujeres.

Bebo esse vinho em memória de ti, dos sonhos vindouros que sonho contigo. Bebo una copa para celebrar tu presencia viva em mi cuerpo que busca el tuyo. Tudo es Navidad, tudo es sueño e deseo.

Essas palabras derramadas banham minha alma seca, minha vida que sonha com uma Groelândia derretida sobre o calor do meu corpo marcado pelo sol da caatinga, pelo ar seco do planalto. Uma flor do cerrado, do infinito horizonte que parece belo, que parece minas, que parecem Corisco e Lampião vestidos de papai noel, num shopping qualquer dessa interminável metrópole.

Ah, sim... feliz nochebuena!

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Aletéia? Delete!


A imagem é essa saudade sem fim. Os teus lindos lábios, a casa Laura e todos essas palavras/imagens sobre o palco da memória. Marçal Aquino e Vladimir Nabokov esperando la caja abierta, con sus fosforitos carmines, prender el fuego de la pasión. No sé cuales son las palabras exactas pero todas ellas son para ti.

Aletéia, essa busca do oculto que se revela en tu boca roja, en mis sueños azules, en los recuerdos de aquellos dias de nuestra vida.

No delete. Onde você estiver... no olvides las mañanas de nuestras vidas.

domingo, 20 de dezembro de 2009

Amora e manhã


Amor a

A M O R A

Amor de mais, de menos, sem demora.

Amor ao aroma

Da flor do teu amor, agora.

Há Roma e Romã.

Delícias verbais, frutas da estação.

Aroma do cajú e do amanhã.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Siete puñales en el corazón de América


É com esse título dramático que Fidel Castro mantém intactos seu discurso e sua vida, dedicados a livrar o coração da América Latina. A lucidez dos seus textos será objeto de intermináveis interpretações ao longo da história. Eles estão entre os clássicos que formulam, com clareza e devoção, o amor e a ferrenha dedicação a salvar o apunhalado coração latino-americano.

Sete punhais e pragas depois, A Utopia Brasileira, de Antonio Risério volta a mostrar a sutileza com que os punhais atravessam a carne da cultura brasileira. O fundamentalismo religioso, político ou cultural; o materialismo desenfreado do consumismo imoral; as paranóias sexuais; o uso da violência, todos elementos que caracterizam os impérios e exercem diabólico fascínio.

O coração da América é uma solidão perseguindo o sonho de uma alegria sem fim.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009


Conheço una muñequita que se ha hecho en la Conchinchina. Ela quer tomar chá. Un té para dos. Sus deseos son mis sueños, mis imágenes.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Esse tipo de coisas


Veja você, caro leitor, o cara está apaixonado! Não faz nada que não seja falar do seu amor. Em suas palavras não pode ser encontrada uma sequer dedicada às questões que importam ao mundo. Nada sobre a liberação da maconha, nem sobre o dinheiro encontrado nas meias e nas cuecas dos corruptos, nenhuma palavra sobre a importantíssima reforma política e a reforma do estado ou sobre os bancos estatais. Não, nada disso. O pobre só consegue ficar alienado em sua mundinho pequeno burguês, enclasurado numa fantasia privada, criada provavelmente no início da modernidade com o tal do amor romântico. É impressionante o total afastamento das coisas do mundo. Os sérios problemas provocados pelas crises dos mercados, o terrorismo ameaçando permanentemente a paz, as discussões sobre israelenses e palestinos que nunca chegam a lugar nenhum, tudo isso é absolutamente alheio ao apaixonado que só vê estrelas e galáxias espalhadas pelo corpo da mulher que o enternece. A tipos assim só lhes interessa o gozo egoísta do corpo, uma espécie de retrocesso, regressão fantasiosa ao útero da mãe. É um filho da mãe!

A situação é explícita, veja só, caro leitor.

“Alimenta minha alma com esse pão sem manteiga, com esses doces infernais. Põe esse manjar na minha boca e fortalece meu desejo. Acende um baseado, abre a janela e me dá um beijo.

Toma banho comigo nesse rio, nessa água verde com areia branca no fundo. Deixa eu limpar tua boca, úmida e gordurosa. Senta aqui e bebe esse suco de maracujá, está bom de doce. Deixa eu ficar no meio das tuas pernas enquanto dobro a ponta do lençol. Não temos pressa, as artes estarão esperando por nós nos museus. Sim, gosto de morder teu joelho, as dobras da tua perna e os tornozelos. Essa dobras todas eu gosto de morder e sentir o sabor. Alimenta minha alma, minhas ilusões e fantasias. Deixa que eu viaje por esse mundos desconhecidos, que guardas com tanto segredo.

Esquece o Papa, deixa ele canonizar quem quiser. O mundo precisa de santos e beatos. Vem para perto, deixa eu morder tuas orelhas. Não importa o PIB do segundo semestre, nem o resultado incerto das pesquisas. É melhor acreditar que as coisas vão melhorar. Chega disso, vem aqui que quero lamber tuas gengivas, tua lingua cheia de geléia de jabuticaba. Vamos desligar esse abajú, essa cor é esquisita. Prefiro a luz natural iluminando teus cabelos perfumados, soltos, macios. Deixa tua mão comigo para que eu possa olhar com cuidado tuas unhas pintadas combinando com a harmonia dos teus pelos.

Vem, abre mais as pernas. Deixa eu chegar mais próximo, cada vez mais dentro, até o infinito. Eu sei, você já me disse e eu fico sempre feliz em lembrar isso. Adoro seu sorriso, o jeito enigmático do seu olhar”.

É caso para internamento, caro leitor! Nossa época não comporta esse tipo de coisas.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Teu corpo


O teu corpo meu repouso, loucura e esquecimento.
Remédio e alimento, o teu corpo, minha sombra e aquecimento.

Páginas dobradas, inteiramente abertas, claras, obscuras dobras
Onde leio teu ser e lembro que só existo porque existes.

Aforisma, frase curta, direta, flor no meio do jardim,
Fonte pura de águas azuis, águas sem fim, úmidas paragens da flor.

Sob o céu intenso, radiação solar incandescente, teu corpo ilumina.
Todo ele uma galáxia de anunciações.

Tua boca, os buracos da tua cabeça, teus poros abertos,
transbordando aromas de misturas e encantamento.
Tuas pernas! Ah, tuas pernas!

O alimento dos meus sonhos,
essa carne do teu corpo feito de luz.

Teu silêncio


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O silêncio oculta latente o desejo
O medo guarda o silêncio na palavra

A rainha não veste suas roupas
a maquiagem é insuficiente para esconder
o silêncio oculto na palavra

A roupa da princesa é azul. Não esconde nada.
Só as palavras ocultam e guardam
Esse silêncio que mata.

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segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Esfeéricas



O manto verde azul vem vindo.
Virá amanhã a chuva, virá.
A noite é negra, com estrelas.
A lua é crescente.

A vida vem na lua.
As estrelas estão presentes.
A rua vai subindo. É no alto.
É lua nascente.

As palavras mostram a imensa dificuldade de dizer algo. Quando li o "poema" acima e fui consultado sobre o que "achava" dele, fiquei sem saber como ser delicado com o pobre moço que enviou seu "poema". Claro que o poeta concorda que tal "poema" é um exercício de infâmia, que isso é uma injúria e uma brincadeira de mau gosto. Escrever coisas assim demonstra um primarismo absoluto e uma degeneração expressiva digna da mais baixa literatura.

Tal infâmia pode ser comparada às cenas dos jornais diários nos quais personagens da vida pública, funcionários, juízes, delegados, governadores são pegos fazendo coisas feias. Os termos usados para descrever tais situações devem ter a mesma qualidade poética de luas nascentes e estrelas presentes.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

A_posta


Pensei postar o James Joyce, pensei a_postar na sorte.

Vou pensando no jogo e na sorte da palavra. Peço que ela venha, mas tudo é incerto. O post é uma a_posta à própria sorte, ao próprio azar.

"Ventos de maio, em dança mar afora,
Dançando lá numa ciranda em glória
De sulco em sulco a espuma esvoaçando
Ao alto, até tornar-se uma guirlanda
De arcos prateados que atravessam o ar-
Não viram meu amor nalgum lugar?
Malandanca, malandanca
Ah ventos de maio em dança!
Amor eh triste se amor estah a distância"(james joyce)


A palavra é triste, assim como se escreve a dor. O amor é triste na distância. Na tristeza o amor permanece, continua amando.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Andanças


O matemático, pressentindo o trágico fim, fez os cálculos mais lindos, mais loucos e verdadeiros. Com eles foi possível compreender a natureza das mudanças. Quando mudamos para deixar tudo inalterado e quando mudamos para nada mudar. Alterar é desassossegar-se no rumo da alteridade, o caminho que abre a porta para o outro, para além da periferia de mim mesmo. A matemática não sabe que não sei matemática. Ela brinca com seus cálculos exatos e deixa que a luz do dia desapareça no início da noite.

Mudanças nas andanças e nos passos da dança. No cálculo impreciso da vida, nas trocas que fazemos, nos beijos que sonhamos enquanto embalamos nossos sonhos em incertas esperanças.

Vem o natal, vem o carnaval e o ano vai começar outra vez. Uma vez mais, e sempre mais, só importa esse desejo de voltar ao teu corpo e sentir tua presença. O dasein esquecido e guardado na lembrança.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Mudanças


Mudar é um pretérito imperfeito do subjuntivo. Regular, conjugado como fácil, mudar é verbo enigmático. Logo a primeira pessoa do presente do indicativo é o estranho mudo. Eu mudo é vago e silencioso. Mudo de casa para ficar mais perto da possibilidade de ser feliz. Não tenho certeza, apenas mudo. Se estou mudo fico em silêncio esperando que minha mudança mude o meu silêncio e o meu sorriso. Tudo parece estar em permanente mudança. Mudam os dias no calendário, mudam as horas e o tempo passa mudando tudo a sua volta. E, ainda assim, permaneço mudo diante dessas mudanças que não mudam a minha dor. Plus ça change, plus c’est la même chose.

“É temerário investigar o desconhecido; mais temerário, porém, é pôr em dúvida aquilo que se conhece”. – Kaspar. A epígrafe é certeira, flecha precisa.

Dias e noites buscando palavras que traduzam os sentimentos incertos. Palavras leves, cruas, tenras, ditas pela manhã, com o frescor da manhã. Nada harmônico, tudo sangue escorrendo pelas pernas e a bunda pousando suavemente no prato grande, cheio de leite. Esse parágrafo será objeto de assepsia tão pronto a empresa responsável pelos serviços mande alguém. Acionamos as empresas e elas nos fornecem os serviços para a mudança. Os serviçais, os empregados domésticos, os prestadores de serviço avulso, todos eles orquestrados para fazer a mudança. E quando tudo fica pronto fica também claro que nada foi alterado.


O outro mundo não importa. A política, a economia, a cultura, os destinos da humanidade: nada disso importa. Apenas o que sonho no meu sono sem acordos com o mundo. Nunca fico de acordo ou acordado num estado de vigília obedecendo às ordens de ficar atento e desperto para os acordos feitos na calada da noite, na madrugada dos meus sonhos.


Sonho que subo correndo a montanha. Resvalo em pedras mas alcanço o abrigo próximo
e interrompo a descida para o abismo. O suor corre pelo rosto, desce pela ladeira íngreme, pelo corpo tenso, banhado em energia e desejo. É em você quem penso seguindo esse caminho. Lá, no alto, quem sabe, verei tua fantasmagoria.

Os dias correm. Subo essa montanha todos os dias da minha vida. É nela que guardo minhas esperanças e desfaço meus sonhos. As palavras são as esperanças e os sonhos são fantasias povoadas de palavras. Não tenho nada além desse corpo organismo com poros abertos e atentos, marcado pelo desejo de subir cada vez mais alto, de estar cada vez mais próximo.

Corro para ti. Para dentro do teu corpo aberto em carne e suores, líquida existência que flutua na minha boca. As partes moles, leves, vermelhas, moradas, pelos suaves, macios, dobrados, repuxados e doces.


Subo correndo a montanha. Resvalo em pedras mas alcanço.
Nunca me canso, esse é sempre o pouso do meu encanto.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Uma palavra



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Se fosse possível palavra, qual seria?
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domingo, 22 de novembro de 2009

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quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Raio




Perdoem, mas tenho que lançar mão, mais uma vez, da expressão “meu caro leitor”. O texto abaixo é daqueles que resultam de frases, copiadas e coladas, de sites e blogs diversos. Tal qual uma máquina textual primitiva, a atividade de copiar e colar frases tem a mesma estrutura de copiar e colar sentimentos. Muitas das frases e imagens encontradas, nessas navegações aleatórias, revelam latentes e curiosas lógicas. O uso da atividade de copiar, ampliado pela maravilha do processamento digital, na produção de auto-retratos, tornou-se um fenômeno que desencobre e alimenta a vaidade humana.
Trata-se aqui, caro leitor, de ver como ficou simples, imediato e banal expor desejos infantis, imagens de flores, animais, paisagens, visitas de parentes, fins de semana no campo, para o mundo inteiro.

A internet vai permitindo viagens pelo que resta disso que um dia se conheceu como alma humana, revelando seus detalhes grotescos, sublimes e banais. As redes sociais, os metaversos dos granfinos, a invasão cultural na senzala, as escalas astronômicas das trocas comerciais, todos contribuindo para o homem depois do homem.

O nome do poema é Raio. Será, caro leitor, o Raio apenas uma montagem de sentimentos, um facilidade computacional? Avalie.

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O dia já raia, vou partir. Voar para bem longe.

Você tem algo para mim.
O que você tem que tanto quero?

Segredos, magia, fortuna, saúde, vaidade, poder, riquezas, alegrias, sorrisos? O que você tem para mim, pernas, braços e abraços da cabeça aos pés?

O que move essa viagem é a lembrança e o desejo de voltar a ver teus olhos. É procurar o sentido que o sol aponta, que faz a planta procurar a luz. Esperando flores, esperando cores. É assim que caminha essa busca da arte no deserto da ciência, nesses diálogos impossíveis e, talvez por isso mesmo, pertinentes.

Fernando Pessoa, esse outro, para além de uma filosofia e de um destino porto guês, anuncia a sina do sol. É inútil, enigmático, claro e lá e cá, em toda parte e em lugar algum. É só isso, desejo. E sentir o sabor do hálito vindo, no enigmático perfume da flor. O cheiro ácido, doce, amargo, penetrando um sorvete de maracujá, amarelo y Van Gogh.

"Se pois é lei do fado / Que sempre a dor / Caminhe negra ao lado / Do verdadeiro amor, / Vamos sofrendo a nossa / Com os demais". É um Sonho de uma noite de Verão - Essa desdita que sempre fez no coração humano um holocausto.

Adoro quando me beijas... quando me tocas... quando ficamos agarrados um ao outro.

O dia já raia, vou partir. Voar para bem longe.

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É com você, caro leitor!

terça-feira, 17 de novembro de 2009

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segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Ilusões


A vida promete suas ilusões. Foi isso que vi escrito e foi a partir dessa conclusão que resolvi viver a vida como promessa, ilusão. Não mais o real, o lógico ou consequente fazem sentido nesse novo mundo, nessa nova forma de viver a vida. O que não esperava é que a tal da realidade, das exigências lógicas e das expectativas de uma vida consequente continuassem insistindo sobre as ilusões e as promessas. Até mesmo elas estavam contamindas com as esperanças falsas da realidade, com as ilusões da própria realidade.

Ilusões prometidas... um paraíso perdido, um jardim do édem, um oásis no deserto da vida? É tão fácil prometer essas coisas, tão fácil prometer uma vida eterna, eternamente gozando maravilhas. Eu só espero num olhar, no té para dos, algumas fotos com sorrisos, uma banca de flores, tocar a ponta dos dedos.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Té para dos


Escrever tornou-se uma necessidade imperiosa para a sobrevivência física e mental diante da ausência. Dias e noites buscando palavras que traduzam os sentimentos incertos, os pensamentos distantes e o desejo explodindo pelo corpo.

Dias de solidão e leitura. Livros e mais livros. Leituras cuidadosas, perguntas e dúvidas dirigidas em todas as direções e olhares. Retomadas de palavras, estranhas montagens, construções as mais absurdas, combinações inesperadas, cálculos os mais infames.

A “necessidade imperiosa” implicava perguntar pela validade e certeza dos pensamentos e das palavras. Tentativas de sanear eventuais delírios, obsessões absurdas ou uma patologia da alma que não conduzisse a nada. Era o trabalho de escavar palavras que ajudassem à sobrevivência, a diminuir a dor da dor.

A famosa frase de Talleyrand, ecoando através do tempo, continua sem solução. “A linguagem existe para ocultar o pensamento do diplomata (ou de uma pessoa ardilosa e suspeita)”. Isso é ou não uma verdade?

Muitos acreditam, parece ser o caso de Jacques Lacan e Victor Kemplerer, que se trata do contrário. “A linguagem sempre revela o que uma pessoa tem dentro de si e deseja encobrir, de si ou dos outros, ou que conserva inconscientemente… uma pessoa pode fazer declarações mentirosas, mas o estilo deixará as mentiras expostas”.

O “amor”, a “adoração”, o coração romântico das frases feitas, as orações budistas de desejos vazios, as declarações do Banco Central, as estatísticas que nós mesmo falsificamos, as lágrimas que nem mesmo choramos, as metas cumpridas, tudo isso é uma armadilha, uma droga barata correndo pelas veias sujas, entupidas.

Daí as runas, os sinais mágicos que guardam os autênticos sentimentos. As imagens e as metáforas loucas, insanas, verdadeiras mas difíceis de serem compreendidas. Mudei de casa, viajo em dezembro para o Natal, volto no começo de janeiro e é possível que em fevereiro eu esteja em março descendo pelo buraco do jardim. É possível que na esquina próxima minha alma espere a tua, que juntas cruzem a rua e procurem um té para dos, com medialunas, é claro.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

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O que resta?




As palavras “amor” e “adoro” estavam gastas. “Te amo” e “te adoro” derramavam-se em excesso e já causavam um certo mal estar. O silêncio se impunha de forma imperativa. Nenhuma palavra era bem vinda. Nenhum sinal de carinho ou afeto era suportado. Tudo parecia ter desandado, saturado, inflamado como uma ferida madura pronta para arrebentar sob a pele vermelha, deixando aparecer aquelas coisas estranhas e indesejáveis, que podiam ser sentidas a olho nu. E doia. A conversa era sofrida. A estranheza, cada vez maior, levava a impossibilidade de comunicação a um estado crônico.

Escrever, por um lado e por outro, implicava problemas. Quando as palavras “amor” ou “adoro” apareciam, eram sempre acompanhadas do “eu”. Eu te “adoro”, eu te “amo”. Esse “eu” aí era um problema a ser resolvido. Ele também fazia parte daquilo que desandou debaixo da pele fina.

A pontuação era uma sofrimento particular, enlouquecedor e, talvez, o maior deles. O sofrimento, as dúvidas por não saber usar os estranhos sinais, ocupava a maior parte do trabalho. Não era fácil encontrar e dizer, com certa felicidade e alguma economia, as palavras disponíveis. Pontos e vírgulas, travessões, interrogações, vírgulas e reticências formavam a linha de frente do desafio. O uso excessivo de pontos, de frases curtas, deixava o texto truncado e confuso. Qualquer especialista em linguística, ou um bom piscólogo, veria logo que as “falhas” no estilo revelavam uma inconsistência, as palavras não se firmavam.

domingo, 8 de novembro de 2009

Urban Soul


O Mac sobre a cama , ligado na camara, mostra quando as pernas abrem e o homem entra no quarto. A frase saiu num jorro, um jato de alívio e alegria sobre a boca aberta e lubrificada até os dentes.

A palavra “pau” dava uma conotação pornográfica, grosseira, indesejável. O seu membro, o seu cacete, seja lá o que for, menos pau. De pau eu não gosto! – Ela disse. Vamos recomeçar: e o cacete lubrificado até os dentes? …tampouco parece servir.

Surgem dúvidas. As palavras ficam suspensas no ar, um vago aroma da pizza mostra dificuldades no cruzamento entre o erotismo e a sacanagem.

Você quer comer algo, quer uma salada? A interrogação é essa dúvida permanente.

Esse negócio de pau entrando é uma agressão grosseira. Veja como Marçal Aquino narra Eu ouviria as piores notícias dos seus lindos lábios. Está tudo lá, mas sem grosseria, sem baixaria. Tem certas coisas que gostamos de ouvir em certos momentos, mas não na maioria das vezes.

As palavras falam de encontros matinais. São iluminadas por uma cor que faz o mundo repousar em certa ordem. O lençol limpo sobre a cama é a única testemunha que resta. O erotismo é barrado na porta das boas maneiras. Os lugares são marcados e as horas têm seu destino próprio.

Não use essa palavra, faça-me o favor!

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Cartas de Amor


Escrevo cartas de amor para a mulher que amo, faço sexo com outras mulheres. Foi isso que ele me disse, caro leitor.

Perguntei-lhe como era isso, como era possível essa contradição, ele nem mesmo piscou e disse à queima roupa: a vida é assim mesmo, cheia de contradições e becos sem saída. Não posso fazer nada. É assim que a vida acontece para mim.

Enquanto olhava seu rosto marcado pela distância, pensei nas minhas leituras. Nas realidades que tomava conhecimento através dos livros e das revistas. Meu tempo estava dedicado a escrever sobre a memória, sobre lembranças e esquecimentos. Tinha que preparar um texto para meus alunos, mas meus pensamentos giravam em torno daquela declaração.

Enquanto a Europa sofria sob os escombros das cidades destruídas, a América erguia suas torres cintilantes para abrigar um mundo de sonhos e muito sexo. As cartas de amor eram entregues entre flores vermelhas e gérberas guardadas no fundo da alma.

De repente, caro leitor, não mais que de repente, eis que chega um e-mail dizendo: esperemos. E, desde então, espero, não faço outra coisa senão esperar. Espero um sinal, um signo de arrependimento, uma semiose da desistência e da comprovação de uma vida monogâmica e previsível.

O mundo, caro leitor, é isso aí. Esse vai e vem de palavras, desejos e esquecimentos.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

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segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Em memória de mim


Não queria usar a expressão “caro leitor” por considerá-la um tanto quanto vaga, indeterminada. Ainda assim, ou por isso mesmo, será usada de agora em diante.

O dia dois de novembro é feriado porque é o dia dos mortos. Para mim, desde pequeno, esse sempre foi um dia muito especial. Não só porque era um feriado, mas por um sentimento raro por conta daqueles que eram lembrandos. O dia dois de novembro é uma data com_e-morativa. É o dia que a sociedade tornou especial, um feriado, para exercer o enigmático feito de lembrar algo que não pode, ou não deve ser esquecido. Com o passar do tempo, dois de novembro é, cada vez mais, um dia de festas, buzinas, praias, comidas, filmes, barulhos e esquecimentos. Os mortos que descansem em paz.

Fazei isso em memória de mim. O pedido de Jesus é para não esquecê-lo. A vida é esse encontro enigmático que se dá no tempo. Passado, presente, futuro e esquecimento.

Responda-me, caro leitor, para não ficarmos nesse blá-blá-blá, o que podemos aprender com isso?

Podemos aprender a esquecer muitas coisas e a lembrar outras tantas. E, até mesmo, construir um futuro, se é que se pode construir um futuro. O tempo das nossas vidas, os diferentes tempos das nossas vidas, distribuidos pelas idades que vivemos, são intervalos de uma maravilhosa dádiva da natureza.

A expressão “maravilhosa dádiva da natureza” é um clichê, um chavão que está em quase todos os textos e declarações que traduzem encantamento de baixa categoria estética. Um pinguim sobre a bolsa Prada, vermelha, com detalhes dourados.

Mas, por favor, responda-me, aonde isso nos leva?

A lugar nenhum ou a muitos lugares. Depende, como sempre, caro leitor, da forma como encaramos as palavras e como jogamos com elas. Como atribuimos significados estranhos e fazemos montagens, cujos sentidos abrem mágicos mundos raros e desconhecidos.

Fazei isso em memória de mim
. No dia dois de novembro as pessoas, muitas pessoas, não todas, é claro, vão aos cemitérios e levam flores para seus parentes, para as pessoas amadas que morreram. Outras vão à praia, ao cinema, viajam no fim de semana prolongado e voltam, depois, aos seus cotidianos afazeres.

A vida é assim. Você só tem que preencher um formulário e enviar. Logo estará cadastrado e nunca mais será esquecido. Nem mesmo depois da sua morte. Até que alguém tenha a piedade de enviar uma cópia da declaração de óbito, continuarão chegando as cartas e os e-mails de aniversário, em sua defunta conta no gmail.

Isso, esse esquecimento, é uma mega esfera com um espelho digital, colada no reflexo da memória contemporâna, exibindo o banco de dados das pequenas lembranças, guardadas no youtube. Uma memória, uns dois gygabites de novembro digital, uma especulatrix imagética e fantasmática.

Responda-me, caro leitor, ainda é possível encontrar sentido nisso? Nessas metáforas gastas, nos delírios desses longos fins de semana regados a solidão e leituras, nas compras de depois de amanhã? O que se pode fazer com esse perpétuo fluxo do cotidiano?

Como lembrar os mortos?

sábado, 31 de outubro de 2009

Runas


Mergulhado na leitura de LTI, de Victor Klemperer, descubro as Runas evocadas no período negro da fome de morte. As palavras trocam de palco, trocam de cenário e sentido. Proliferam currículos e memórias, proliferam esquecimentos e temores. Desço as esquálidas dobras do caminho e encontro as Runas do Esquecimento, dos Medos e das Fantasias.

Um sorriso fica esquecido no canto da página, os olhares tomam outras direções e procuram o vão vazio da escada. Debaixo dela estão guardadas as memórias e os fragmentos esquecidos nas caixas embaladas, com fitas do Senhor do Bomfim. Os deuses estão empacotados em conserva e exalam cheiro de naftalina, alfazema e arruda.

As imagens, aquelas que traduzem o ofício do poeta, vagam em manhãs de quartas feiras e de domingos insondáveis. Portugal me espera, me desespera, me procura. Portugal é essa tristeza que guardo de ti nesse pós doutorado digital que vai custar mil euros, mil palavras e outros valores, esquecidos nalguma dobra do parque de Palermo, de alguma calle Florida.

Olho as Runas, os oráculos da nossa história e da tua enigmática ausência. Percebi tudo isso em um domingo de manhã. Estávamos tomando um café na cozinha. Eu olhava teus olhos e desejava tua existência cruzar perpetuamente a minha. As Runas dizem que o tempo é de silêncio. Não creio nelas. Creio em ti pois tenho certeza que não dizes nada. Não ouço mais que o teu olhar, teu enigmático desaparecimento.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

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sem exclamações, sem pontos e vírgulas.
aqui tudo é indagação, dúvida, pergunta.

onde estou, onde estás, porque não respondes
o que seria do mundo sem vc.

Se quiser saber mais, pergunte. Tenha dúvidas, investigue, procure, corra atrás.

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quinta-feira, 29 de outubro de 2009

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quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Interrogações




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Traço com asteriscos a linha que divide o tempo em passado e presente. Tento dominar o turbilhão de palavras e idéias que aparecem de todos os lados. Como gárgulas que ganham vida, as palavras fazem voos razantes sobre os desejos e os planos de organizar a vida do futuro, dos próximos dias. Tropeços e ansiedades brotam dos acontecimentos, indiferentes ao poder de determinação que havia sido combinado dias atrás. Erros, se assim se pode dizer, são cometidos involuntariamente. Eles resultam, quase sempre, de uma exagerada forma de expressar sentimentos e desejos. Tudo parece residir no plano das emoções sem passar pelo planejamento sistemático do pensamento lógico. É um jorro, um desaguar de palavras carregadas de interrogações e fantasias. Uma espécie de verborrágica sessão de análise sem a menor preocupação em sistematizar nada. Sentimentos e emoções que chegam, na maior parte das vezes, entre quase ódios e indeterminadas raivas.

Vejo o rostinho de Isabela desmanchando em lágrimas só porque a mãe não deu o brinquedo. Lágrimas e sentimentos que parecem anunciar o fim do mundo. Descabelada, o rosto expressa um sofrimento que parece traduzir as dores mais trágicas. Logo em seguida tudo cessa e cala, para voltar à normalidade, e o mais lindo sorriso surgir no rosto da criança, que viveu tudo aquilo como um sonho, uma distante e inexistente fantasia.

A filosofia é o pensamento sistemático. Qual filosofia? A interrogação não é uma exclamação, não é um contar vitórias ou atitude de vanglória soberba. A interrogação traduz a fragilidade impressionista que navega em ondas de cor, na delicadeza da flor, na certeza da morte, na dor do adeus. Tudo nessa interrogação é carregado da fragilidade humana, da indeterminação das horas, da esperança daqueles que não ultrapassam as definitvas portas do inferno.

Eis o que vejo, o que sinto e interrogo nessa manhã de pouca luz, de nuvens carregadas que estão além dos edíficios que vejo agora na varanda dessa cidade, megalópolis assustadora.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Espera


A praia da Espera é calma. Nela desembarcam os mercadores de flores e esperanças. A palavra sobre a pedra é levada pela maré. O desejo espreita a resposta. A calma assenta o olhar. Megapixels do teu olhar marcam o nascer do dia.

domingo, 25 de outubro de 2009

Brincar




A linguagem é um jogo, um jogo de linguagens. Mas esse jogar é uma brincadeira que recomeça tão pronto o jogo termina. A criança joga e nós jogamos fora as palavras ou guardamos silêncio e prudência naquilo que não dizemos.

O que está em jogo parece ter a importância do próprio destino. Mas, quando brincamos, o jogo está associado ao prazer da criança quando vê outra criança que, sem mesmo perguntar primeiro pelo nome, simplesmente indaga: você quer brincar?

A filosofia cuida da linguagem desde o seu começo. Durante toda a sua vida, essa moça tão cheia de sonhos, sempre escarafunchou a caixa da linguagem. Essa caixa guarda os segredos e o destino do homem. E das mulheres, é claro.

O e-mail tinha duas pequenas perguntas. As perguntas eram simples mas difíceis de ser respondidas. O silêncio, na caixa da linguagem, é o oculto que foi para a face escura da lua. Talvez definitivamente deletado do desejo ou transformado em angústia e dúvida.

O jogo é a vida que escolhemos a cada lance do peão. A linguagem é quem diz o lugar do peão e quais as estratégias na construção dos sonhos, nossa procura para estimular em nós o melhor da humanidade. Para muitos, isso é uma brincadeira pueril, para outros é uma atividade difícil, transformadora, mas sempre muito perigosa.

A pobreza da vida é expressa na pobreza da linguagem. Não só no uso dos termos mas também nas formulações limitadas, na ausência dos vôos do espírito, na incapacidade de sonhar e criar novos mundos. Tudo é claro, demasiado dado. Aparentemente óbvio. E a vida passa entre um gole e um 2 a 1.

Os limites entre a pobreza de espírito e a exuberante abundância do reino da poesia vão tatuando nossa alma ao longo da vida. Cada marca da nossa história, o orgulho e o prazer mais elevado que nos permitimos viver, remete sempre a Shiller: “É o espírito que constrói o corpo à sua imagem”.

sábado, 24 de outubro de 2009

3:45 am




É madrugada. Releio, mais uma vez, a entrevista de José Saramago concedida ao jornal Folha de São Paulo. As palavras proferidas pelo escritor, que já alcançou a graça dos 86 anos, certamente traduz pensamentos e sentimentos de muitos.

São passados, desde então, quarenta horas de frio e fome viral. Uma desorientação espacial e emocional. Onde estou e o que sinto quando olho ao lado e vejo uma pequena flor delicada? Um lirismo recheado de terríveis intenções que carece de uma fundamentação metafísica.

A noção de comunicação formulada por Norbert Winer tornou-se ainda mais verdadeira. A arte de não dizer nada a todos. A linguagem torna-se, sempre mais, metafórica. Os sentidos das palavras mudam a cada frase. Na frase seguinte os sentidos trocam de enredo, enigmaticamente trocados por sentidos novos e absolutamente sem sentido.

As multidões, os grandes números, os milhões de leitores são cifras traduzidas em possibilidades publicitárias. Todos, em seus notebooks exibem suas intimidades. Atores, humoristas, políticos, empresários, poetas, encanadores, estudantes, todos eles igualadas na indiferença de todos. De repente tudo ficou preto de gente. A expressão de Elias Caneti ressoa nas reflexões de Sloterdjik enquanto Felipe Pondé, num relâmpago de celebridade, faz questão de falar dos charutos fumados e das taças de vinho derramadas sobre uma charla, absurdamente esquecida imediatamente.

A memória e os ressentimentos de rever os velhos amigos encharcados de academia e dos relatos insuportáveis chamados teoria. Todos citando todos num claro retorno babélico ao prazer de nada dizer e tudo ser compreendido. Basta o olhar de Beatriz, basta a música lânguida e penetrante. Surdos falando alto, cegos fotografando.

Línguas e arrogâncias recheadas de músculos e viroes. Não verás virose com essa. Dengues hemorrágicas traduzidas em belos espetáculos de cores e bossais biólogos, medidores de dilatações anais de insetos vermelhos, exibindo uma pança cheia de projetos e recursos estatais.

Espero o efeito da efedrina e da cafeína se aproximar do próximo neurônio. A ex-aluna entre aspas enviando mais um scrap para os amigos que irão bombar a balada na boca da noite e na clínica psiquiatrica.

Desligo. O avião não vai chegar. Mas a beleza está a minha frente e diante dela o mundo se cala. A beleza, agora no meu sonho, é esa criança oriental, essa menina de 3 anos ajudando a mãe a fechar a bolsa. A pureza contaminada pelo desejo de fazer algo.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Andrômeda



Acordo e leio os jornais. Visito rapidamente a caixa de mensagens e respondo logo às urgências do trabalho. Tenho que preparar uma aula. Os livros estão selecionados sobre a mesa há algum tempo. O tema a ser apresentado requer uma reunião inédita de correntes de pensamento, muitas delas contraditórias. Os diálogos são, na maioria das vezes, absurdos.

A tarefa matinal sempre tem início depois que o esquecimento se faz presente.

Será a impossibilidade da linguagem em dar conta do sentido profundo e último das coisas e do mundo que faz nascer o poeta? Lendo Octavio Paz, sempre mais uma vez, vivo essa experiência de espanto e assombro diante do modo clássico, suavemente humano, quase cruel e sublime como as palavras são capazes de elevar o espírito ao alto, lá de onde se vê a imensidão do abismo.

A luz invade a sala. Há luz. As palavras irradiam uma presença enigmática. Ainda é possível esse gênero narrativo que se arrasta desde tempos imemoriais? O assunto da aula é o poema visual. Naqueles livros, ali na minha frente, autores caminham por veredas estranhas procurando saber como é possível o lirismo sobreviver, ainda hoje, no rarefeito e precário mundo construido pelo homem.

Por que poesia? A pergunta é logo descartada como inútil. Se algo, seja o que for, não puder ser convertido em venda, negócio ou prece a Deus, então não há interesse.

Mas se for convertida em negócio ainda será poesia? Há poesia com desenvolvimento sustentável? Uma poesia do eucalipto industrial num diapasão poemétrico com as mineradoras, escavando as entranhas da terra?

Mas há luz e há alguma poesia. Essa doce sombra que abriga o homem da ferocidade da clareza.

Desço as cortinas e procuro a suavidade, propícia à luz da poesia. O poema visual é o teu corpo. Tua imagem impressa na indiferença do tempo. A galáxia dos sonhos da minha esperança.

sábado, 17 de outubro de 2009

Ybicuys



Procuro manter distância dessa literatur produtivista Gabriel Chalita Opus Dei, mas não deixo de ver tudo isso escoando pelos bueiros que passam longe dos muros dos Jardins.

Vejo uma mistura da Folha de São Paulo, Rede Globo, Record, El País, La Nación, Gramma, New York Times.

… tudo resumido em uma única notícia, que poderia estar em qualquer lugar: na selva, com seus micos leões dourados ou nas vitrines iluminadas por neóns suavemente lilases. Um mundo compactado, um código com intermináveis senhas, lembranças criptografadas. Uma lagoa e uma casa de fazenda, iluminada, seca e fria durante a noite. Café e frutas. Água e terra. Lama e brincadeira. Flores, sonhos e crianças, e saudades de saladas com coca-cola.

O mundo, muitas vezes, é uma coca-cola com saudade. Dentro disso, que para alguns nem bebida é, existe um gás. Nesse gás, um efeito mágico faz o conteúdo negro lançar minúsculas esferas cheias de luz. Coisinhas… de existência tão curta… trazem à vida, pela lembrança, a magia que a ilusão faz brilhar.


O filme cheio de cores, gritos e dores. O café está quente. Melhor dar um pause. A imagem congela no rosto inquieto da mullher. Uma saudade vermelha e branca. Uma salada com muito azeite, sal, limão, e pão.

Isso tudo é política baiana, brasileira. Olho e vejo a cultura brasileira como um resultado sincrético da rede globo, futebol e nelsonrodrigues. Peço paciência pela criptografia. Mas, com uma boa senha, é possível, desse ponto de partida, encontrar Gregório de Matos e Nelson Cavaquinho, passando, evidentemente, por Gilberto Freyre, Antônio Risério e Dorival Caymmi. A Bahia, essa grande agência de publicidade, é o palco dessa cultura.

O Brasil é uma paróquia e uma paródia. Tiradentes, Ouro Preto, Pindamonhangaba e Santo Amaro da Purificação. A Tarde, Jornal do Brasil e uma Folha cheios de notícias, cheios de silêncios, de nadas, mas com preciosas imagens das marginais Pinheiros e Tietê, engarrafadas até o limite do mau cheiro. Shoppings Iguatemis, Salvadores, Itapebis, Itororós e Ybycuys de carnes ao sol.

Paciência, isso está criptografado!
No mundo em que vivemos, o cuidado em embalar palavras é desmedido.
Tudo pode significar tudo e nada ao mesmo tempo.
É preciso tempo, palavras, esquecimento.

Santa Catarina, alemã tucunaré pataxó hã hã hãe, quem sabe holandesa, de Nassau pernanbucana, bolsa Fullbright e conexões frankfurtianas de culturas industriosas. Uma falta de sentido colossal, cínica.

E, para completar, biscoitos kasher, sorvetes Häagen-Dazs, pés-de-moleque e suaves quebra-queixos.

A poesia é esse amontoado de palavras doces, medos, celos, ganas. Ganas de ti.
Temores de balas perdidas, tristezas súbitas ou crônicas.

Este poema é um medo de resenhas, de versos, prosas, novelas e contos.
Medo de certas e inevitáveis palavras.
De palavras que não voltam atrás, de saudades sem fim.

Na caverna dos Cíclopes tem televisão de plasma. Ninguém está na tela. Ulisses salta fora com seus companheiros. Esperam as magias sexuais de Circe. É sempre melhor sonhar, é sempre melhor nadar no mar azul das ilhas desconhecidas.


Saudades do léxico, da dúvida, das incertezas no mercado das idéias.
Feiras de livros, sorvetes de maracujá flutuando sobre as águas paradas de todas as possibilidades.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Romance


Queria que ela vestisse para mim as calcinhas que comprei para ela.

Fiz um composição com cores puras e serenas. Criei um dispositivo para que a intensidade da luz mudasse ao longo do tempo em que ficaríamos juntos. O tempo que ela ia tirando as calcinhas que comprei para ela.

Ela gostava de ficar bonita para mim. Disse isso muitas vezes e eu via quanto, a cada dia, ela ficava sempre mais bonita. Ela era a festa dos meus olhos.

Com ela aprendi a amar. Fodíamos! Eu acordava bem cedo para limpar a casa esperando sua chegada. Não deixava a presença de qualquer vestígio de dedo nos vidros da janela ou sujeiras ocultas no tapete.

Combinei tudo para que houvesse harmonia entre sons, perfumes e cores. As gérberas, iluminadas pela luz que vinha da janela do banheiro, coloriam o corredor. Essas imagens foram ganhando cada vez mais um colorido e surrealismo photoshopico e, ainda hoje, restam algumas por aí.

Depois da casa limpa e do banho, descia para a padaria da esquina. era lá que eu via o mundo dos homens. o ônibus, o ponto de taxi, a banca de revista e o cheiro do café. Trabalhadores da construção civil, do serviço doméstico e todos aqueles de renda mais baixa frequentavam a espelumca do bar restaurante que ficava do outro lado da rua.

Pensei em escrever um romance, até descobrir que a coisa mais ridícula que alguém pode dizer e pensar é em escrever um romance. Depois de anos de vida num trabalho medíocre o sujeito acha que pode e deve escrever um romance.

Escrever um romance para que, contar o que? Talvez só para contar e lembrar aquela luz iluminado o quadro e o vaso com gérberas vermelhas, laranja e amarelas, no chão do corredor. Fui ao photoshop ampliar o ambiente do quarto. Eliminei a parede e construi a imagem da montanha, soberba sobre o mar. Imagens e algo mais.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Esquecimento Global



Em oposição ao aquecimento global, deve-se pensar no esquecimento global. Esquecer que somos humanos e que acreditamos na salvação da alma e na dor que impingimos aos frangos, aos bezerros e aos outros bichinhos que, quando assados ou grelhados, são uma delícia.

Hoje, ainda hoje, o judeu Luis Felipé Pondé (os judeus se apresentam sob os mais diversos nomes – eu só conhecia os Goldfingers e os Safra), a quem tenho uma grande admiração, falava exatamente da cara de pau desses defensores das galinhas mortas que morreram na cruz para alimentar, com suas carnes brancas, as nossas barrigas adiposas e imorais. Dias difíceis esses nossos em que as pulgas são mal vistas e as baratas odiadas. O homem transporta sua estupidez para todos os seus propósitos, sobretudo para os mais nobres.

No meio do caminho há uma pedra. Pedras são poemas graníticos, perfumados com sangue e dor. Cora Coralina não é cobra coral colorida graduada em Comunicação e nas suas teorias apavorantes, que sofrem de hipodermias culturais. Tem, olha só o verbo, gente que tem cultura e currículo Lattes de dar inveja e náuseas. Aliás, quando ouço alguém falar em Currículo Lattes pergunto sempre aos meus botões de carne e ovo se ‘os cães Lattes e se a caravana passa’. Difícil dizer algo nesse barulho ensudercedor do Enem, das medidas tecnicamente mornas da ABNT.

Ah sim, e, para completar, tudo que aqui foi dito pode ser enfiado no Lattes. Não no meu, é claro.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Media-lunas


No livro de todas as coisas falta a Lua. A lua oculta aletéias do ser e dúvidas do engano que se enganou. Difícil dizer da flor que diz com cor, a dobra do rio e a sombra da árvore do lago verde, azul do teu ser.

Inhotim, jabuticabas sem fim, confins dobrando o caminho para João Monlevade, de tristezas e horas perdidas, no trânsito, na espera na mensagem, da ausência do sinal no celular, do wifi inexistente no caminho desse Nanuque gigante, de pedras lisas e distantes.

Crianças, essas alegrias da vida, sorriem para mim. Faço graças e me escondo atrás da cadeira, da coluna. O sorriso se espalha. Não é mais dia, nem mesmo noite. É uma lua eterna, brilhante, ocultando sempre o outro lado do sonho que nasce por toda parte, por toda flor, por toda cor que corre nas veias do desejo de te ver.

São convites media-lunas, meio estranhas, entranhas que brotam no vigor da primavera. Nem mesmo as clareiras, resplandecentes no caminho da floresta, iluminam mais a vida que essas palavras que leio no e-mail, no meio dos teus lábios carmim.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Onde estou, onde estás?


A imagem é Cora,
Coralina.


A palavra é um lugar.

Cabul, Barranquilla, Viña del Mar.

Onde estou, onde estás?

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Isla Negra



Nunca pensei em ter leitores. Agora, com este bendito blog, sou informado de que os tenho. Muitos deles são alunos meus e de outros professores, meus amigos, que obrigam esses "pobres meninos" a ler tão mal elaboradas frases. Frases que, muitas vezes, compro na cesta das frases prontas. Esta semana, por exemplo, comprei uma por três reais.

Dizia assim: “Meu Deus, dai-me paciência, porque, se me der força, mato um!”.

Pensei em comprar frases mais longas, mais cheias de conteúdos como aquela que dizia: “estou me endividando até os ossos osteoporosos”. Esta, aliás, eu mesmo fiz, mas, por ela, não achei um tostão sequer. E eu, precisando de tanto dinheiro para comprar um terno Armani, uma camisa Dudalina e uma caneta Mont Blanc. Nem penso que com esssas frases eu pudesse comprar um Chrysler PT Cruiser. Soube que, quando desregulado, gasta muita gasolina, o que seria fatal para meu salário de professor que vende frases quase prontas a preços módicos.

Hoje, tentei comprar uma puta, linda, loira e alta. Queria comprar a atenção do olhar que ela vendia. Cobrou-me trezentos reais apenas por tocar seu corpo, marcado por mãos carinhosas e solitárias. Sexo, não faço com putas, não pago por sexo, não pago por amor. Pago por imagens, por ilusões perceptivas e por fantasias bíblicas, sobretudo as do Velho Testamento.

Nunca pensei em ter leitores, nem alunos. Apenas sonhei um dia que poderia ter o teu amor. Mas, pobre de mim e do meu jardim, que só floreceu flores de plástico com gérberas ausentes e medrosas, tal qual o jardim descrito por Bioy Casares en La Invención de Morel. Apático, ridículo, carregado de temores e fantasmas banhados por marés que sobem sempre às cinco en punto de la tarde. Siempre que siento la distancia que criaste entre el deseo y el sueño.

Nunca pensei que pudesses pensar em mim. Mas vejo que tenho leitores, alunos e estranhos e raros admiradores. espalhados por esse mágico continente latino americano. Mañana, por la mañana, quando la noche no sea mas noche y el dia empeze com sus luzes matinales estarei num avião da LanChile a caminho de Santiago, a camino de la Isla Negra del poeta, de la desaventurada ventura de ser um poeta que espera, una vez más, mirar la luz dos olhos teus.

domingo, 4 de outubro de 2009

Omega 3



A hora abre a porta e fecha o sentido do aroma do café. Bolhas de sabão sopram a brisa lenta e curva que dobra o infinito desejo de voltar pelo lado oposto de Las Cortaderas. Foi em Bogotá, a caminho de Santa Marta, que encontrei os teus seios pontiagudos banhados em cores caribenhas e azuis. Nas tardes de verão, nossas mãos suavam lentamente entre os dedos, cruzando as curvas retilíneas do Parque de Palermo, que apenas existia enquanto layer do photoshop. Era um dique do Tororó embaçado pela umidade da Bahia de larga barra e intermináveis negócios, pendurados nos logotipos das cabras e dos cabritos, berrando mééé pelos sertões de Euclides e das mansões debruçadas sobre a marina da avenida Contorno.

Não sou mais que um personagem perambulando páginas sem editores reconhecidos ou blogs afamados. Não têm fama nem celebridade essas palavras que apenas rondam rodapés das Confissões de Santo Agostinho. Nem mesmo São Paulo, com seus splendorosos edifícios cinza da avenida Mena Barreto, pode aplacar o irracionalismo do apóstolo homônimo, que derrama escamas de sardinhas banhadas em omega três.

Nasci no Yon Kippur, mas paguei quatro reais para entrar na Sinagoga de onde pude observar a Torre Malakoff no reflexo do café expressamente forte do Starbucks. Aperto o botão da Cannon de quize mega pixels e o resultado é uma imagem luminosa das velas que acendi na igreja da Liberdade, pedindo pela tua saúde e pelo funcionamento do teu intestino, que é o mesmo relógio que aponta ponteiros em direções que nunca sou capaz de alcançar.

Ai de ti Copacabana, ai de mim que corro pela Lagoa Rodrigo de Freitas, poluída de drogas perigosas e arrogantes. Nem mesmo o Parque Lage, com suas macunaímicas piscinas banhadas de feijoadas oleosas, seria capaz de eliminar o cheiro pesado da gordura que corre das ladeiras do Humaitá. Lembro as deletadas imagens que fui obrigado a esquecer, todas elas apagadas do disco rígido, mas indeléveis nos desejos impressos no suave amor que guardo por ti. Nem mesmo Salomão nos seus dias de glória podia prever conceitos naufragados em metodologias escassas e enganosas.

Caminho rumo ao cais da minha rua porto seco pirajá. Encontro um vinho do Porto, um azeite virgem, Galo, bacalhau de Alesund, romarias de grutas virgens e Lourdes. Madonna mia, cabalísticas aceleradas pelo CrossFox de Sthefany, embalando as britadeiras esculhambadas pelas baterias arriadas e ácidas. É noite, os fárois iluminam o túnel apagado na escuridão das sessões analíticas das topologias lacanianas. É quase como aquele jantar que o chef do Fasano fez lá em casa, com ingredientes vindos do Piauí. Na verdade, era tudo africano, tudo africado pelas páginas de revistas pornôs, decoradas pelas gráficas suspensas no ar.

Tudo isso me veio à mente neste domingo em que contemplo a ponte que une o nada ao absoluto prazer de pensar que você pensa em mim.

sábado, 3 de outubro de 2009

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sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Evelyn Glennie



Ouvir Evelyn Glennie sob a regência de Kazen Abdullah é um luxo situado "mais do lado de Eros que de Tânatos, mais do lado do ser que do devir, mais do lado da memória que do esquecimento".

É ser arremessado para o momento em que "algo de metafísico continua a habitar nossos desejos de gozar, como os deuses, as coisas mais raras e belas".

A imagem do ingresso para a Sala São Paulo é um não esquecer que a vida floresce na primavera do desejo, da lembrança que abraça a saudade que tenho de ti. Las fuerzas extrañas que Borges lembra de lembrar quando aponta La Invención de Morel como uma obra perfeita.

Tu és a obra perfeita que minha incoerência verbal nunca consegue traduzir.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Tédio Digital


Tédio é, em alemão, matar o tempo. A morte ronda homens e mulheres na indeterminação da vida. Morre-se velho, morre-se jovem. Lembro uma música de Gilberto Gil:

Era um rapaz de vinte e cinco anos
Hoje ele morreu atropelado em frente à companhia
de seguro
Oh! que futuro!
Oh! Rapaz de vinte e cinco anos


Como esquecer que somos frágeis e que a vida é essa indeterminação e que, por isso mesmo, quando encontramos algo que nos faz viver e sentir a vida vibrar devemos nos agarrar a isso, com toda força que ela nos dá?

Quero continuar vivendo como se hoje fosse o primeiro dia da vida, como se hoje fosse o último dia da vida. O dia nasce e procuro as flores, o dia anuncia a hora do crepúsculo e meus olhos procuram os teus.

Aqui, por onde meus olhos procuram os teus, não há tédio, só esperança de ver mais uma vez o dia nascer e encontrar o teu olhar que brilha no esplendor da vida, da alegria e da primavera em flor.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Políticas

A super política virá.

domingo, 27 de setembro de 2009

É domingo




Subo o minhocão, a pé. É domingo. Milhares de pessoas correm pelas ruas numa maratona/treino-sei-lá-do-que. São Paulo é a locomotiva do Brasil, uma locomotiva que leva o trem para o abismo, que é de todos. De NewYork a Shangai e à Tokyo poluída e demasiadamente cheia de humanos, movidos a baterias de lítio e a césio 147.

A imprensa, esse antro de línguas podres e mentes descamadas, clama pela ordem da desordem e por uma ética sinestésica encravada nas unhas do pedólogo. Leio as Ilustradas páginas e tudo aquilo que está no Mais ou no menos absurdo das filosofias Daslu. Daspu, espero bem mais. E elas sempre dão sempre menos e cobram demais. Cobram a assinatura dos seus articulistas de plantão ou de férias, as quais nunca chegam pra mim. Eu quero mais, sempre mais, ainda que todos os barcos abandonem o cais ou que caias de quatro por mim. A filosofia é uma fila de filo-zóficos projetos alucinantes, mas metodologicamente corretos, transbordando palavrões e pedagogias de amor. Amor ao próximo e à próxima remessa de lucros para as aquisições das camisas Dudalina, cheias de clichês dourados e permanentes.

O texto é assim mesmo, fragmentado, fragmentária semiose de suspeitas gripes suínas e retórica baiana, untada em óleo de castanha do pará. Não tem rima nem pretensões de qualquer coerência lógica. Só pensa mesmo é em sexo e desejos confins. As palavras jorram num fluxo sem feedbacks ou refluxos. O texto é um pão com manteiga em excesso, derramando-se pelas laterais das veias e pela obliquidade dos teus comentários. Parece uma política do esquecimento, um delete antes que seja tarde, antes que o dia amanheça e a turba reivindique a fortuna do pré-sal.

A maratona é assim, esse ir e vir de pessoas caminhando e gritando: “Vamos lá, galera!!”. É domingo e as notícias brincam de dizer que a primavera começou, que a vida é bela, é rosa, é brasileira.

sábado, 26 de setembro de 2009

São Paulo




A marginal Tietê engarrafada até os dentes. A primavera suavizando os nomes das tuas ruas poluídas e descarnadas. Iperoig nas Perdizes das tuas Harmonias e teus cafés cremosos carregados de saudades e sotaques brasileiros. As tuas semióticas complexidades derramadas sobre o leite desnatado nas tuas coxas é a via lácta do meu destino.

É nesse domingo de flores e cafés que minh'alma sorri no teu sorriso distante de mim.

É sol e a vida perguntando pelo desejo, por isso que traímos sempre: o nosso desejo.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Vitória


Passo meus olhos por Vitória. Estou no Espírito Santo. As pedras são imensos corações no coração da montanha. A primavera transporta a alma para o alto e o ar raro tem um efeito estranho e rarefeito. Não são trocações de sentidos no jogo das palavras o que encanta a procura do caminho. São as cores das flores que evocam tua presença, teu perfume e o de desejo de te ver no bosque da vida curta.

A arte é longa, a vida breve. Ainda que durasse toda a eternidade.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Primavera em tuas mãos


Primavera, em tuas flores entrego meu espírito.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

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segunda-feira, 21 de setembro de 2009

O coração é uma pedra, um desejo e um fim



O barco já vai partir levando o errante. A mulher cuidava do filho que também trazia as primeiras marcas da sua própria errância. Ela vivia sua dúvida entre ficar e partir. Fazia para si roupas novas para o novo e desconhecido lugar. Sabia que lá os cremes, as bases, as roupas novas e as teorias teriam pouco valor e utensílio. Lá, nesse estranho e novo lugar, nenhum lógica, nenhuma regra do mundo que ficava atrás, teria lugar. Tudo era novo, tudo era velho.

Não havia como fugir, apenas olhar com olhos tristes e cheios de saudades a lua que ontem foi cheia e hoje mingua no eterno ciclo do interminável rio da existência. Nenhuma marca, tatuagem ou lembrança sobreveveria ao novo tempo que a errância empurra, inevitavelmente, para o além.

Enquanto preparava um pequeno e nutritivo alimento, os olhos da mulher deixavam lágrimas que eram as transparentes palavras do poeta, nas quais se podia ler todo amor que brotava do seu coração. Mas o coração é uma pedra, um desejo e um fim.

O errante não era o barco, nem os mares mas o vento violento que com seus raios iluminava o silêncio dos espaços eternos. Não havia lugar para lembranças, histórias ou objetos que pudessem um dia evocar a terra de onde se partiu.

O marido ainda cuidava de prover a casa de areia desmanchando-se no tempo. Ainda sugava a energia da terra esquálida que amamentou à exaustação os filhos, os novos errantes. O marido cumpria sua missão de ficar preso ao destino de ficar e ver a angústia da mulher secando o cabelo frente ao espelho do tempo.

Não havia mais primavera no final daquele inverno. Só flores de plásticos e planos de saúde top de linha. Nem uma vela, nenhum barco, nenhum destino. Tudo estava determinado, previsível, certo, lançado no livro caixa do cotidiano.

O errante caminhante acende uma estrela e segue o incerto caminho. Segue na incerteza da vida, na incerteza da estrela que brilha na tela do seu celular. Sorri de mansinho e sente a brisa fresca da noite alegrar seu sonho.

A mulher abraça o filho e chora baixinho. Não mais nascem flores nessa primavera.

Aruka Marina




Aruka Marina, Aruka José Alencar! As palavras mágicas existem.

"Aruka" é uma variação do hebraico que traduz a capacidade do organismo de reparar seus tecidos atingidos, renovando-os.

as palavras e as coisas

domingo, 20 de setembro de 2009

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sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Conchinchina



Conheço una muñequita que se ha hecho en la Conchinchina. Su color es color de piel y laca. El perfume es de la fruta de la passión. Su boca tiene sabor de boca y frutos de la estación. Quando la beso siento em mi la vida por entera.

Ela vive numa redoma de plástico, envolta em sonhos que habitam ilhas desconhecidas, acreditando no Tarô e nos hexagramas do I Ching. Quando a toco ela retoma a vida e me transporta para o Pigmaleão que ronda todas as almas humanas. Gosta de filosofia e de cremes hidratantes e perfumados. Sus perfumes son hechos por Lauder y sus encantos são comprados na rua vinte e cinco de março. Ela gosta de la tierra y de las hormigas que llevam hojas grandes y verdes para el nido.

Mi muñequita tiene su muñequita también. Las dos juegan juegos de alegrias y primaveras. Flores, água y luzes que bajan del cielo quando el niño Jesus viene jugar con los mortales.

Esta muñequita es mi sueño, mis alegrias y locuras. Ella no esta interessada nos debates sobre democracias representativas ou em formulários acadêmicos ou ainda nos PIBs de las naciones. A ella no le importa las exportaciones nem quer saber dos navios ancorados no porto de Tubarão.

Ela gosta de rock e das canções de Ceumar y de vinos tinto, rojos e sonhadores. Ela gosta de design in branco, amarillos y de borboletas azules. Gosta de não gostar muito de mim. Vive me provocando provocações sem fim.

Quando nasce la mañana ela diz que sim y quando la noche prende sus luceros en el cielo yo tengo que dormir.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Num meio-dia de Primavera


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A flor é um clichê numa primavera de plástico.
Um luxo emocional, vinho tinto de safra duvidosa.

Queixo-me às rosas, mas que bobagem!

Se soubesse que amanhã morria

E a Primavera era depois de amanhã,

Morreria contente, porque ela era depois de amanhã
. FP
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segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Invisíveis


"Schianberg escreve que é comum os amantes se tomarem por invisíveis. Apaixonados, ele diz, pensam que estão sempre a sós no mundo. É um engano: estão apenas ofuscados pela luz que eles próprios emitem"

Marçal Aquino in Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios.